Aquela
fora uma noite memorável, e no dia seguinte, bem cedo, Teru já estava
pronto para ir a escola. E, escondida junto a sua carteira de notas,
se encontrava, em um local previamente arrumado, a Grande Pérola
Negra. Um local provisório, entretanto se tornavam inseparáveis.
Os
treinos continuaram com o sensei, e Teru cada vez e mais surpreendia a
mestre Myamoto pelo seu rápido desenvolver e crescimento do Judô.
Agora
iam para locais diferentes, praias desertas, florestas, montanhas em
longas caminhadas, onde faziam treinos diferentes, e analisavam as
relações entre a natureza e o Judô.
O Bambu,
se dobrava ao vento, e com ele ganhava força e fortalecia suas fibras,
deixando-o passar e voltando a sua posição original. Já as grandes
arvores, tentando enfrentá-lo, perdiam suas raízes, e acabavam na
postura determinada pelo vento, por vezes até eram derrubadas.
Viam e
apreciavam o estilo de defesa do gafanhoto, ágil e rápido, contudo
muito dispersivo e sem atenção. A agilidade e perspicácia do Puma, a
diversificação de posições de defesa e ataque do louva-a-deus, e
analisavam os diversos e múltiplos aspectos que interligam a mente
humana à natureza, quando se sabe observá-la.
No
inverno iam as montanhas, só de calça do Kimono, e ficavam horas
sentados na postura clássica do Judô, concentrados e absorvendo toda a
força da baixa temperatura, treinos de desenvolver a mente, e seu
domínio sobre o corpo.
Teru
fizera um saquinho de couro, onde colocara a Pérola Negra, só retirado
nas horas de treinos corpo a corpo.
Mestre
Myamoto, achara aquilo muito estranho, e certa vez perguntara a Teru o
que havia dentro do pequeno saquinho, no que obtivera com resposta a
seguinte explanação:
─
Meu
sensei, e pai, dentro deste saquinho está um pedaço de meu kimono que
venci meu primeiro campeonato, ai esta minha força parte de meu
espírito. Um amuleto que reverencia o clã dos Sekito e nossos
ancestrais.
O senhor
Myamoto, sabia que algo mais lá se encontrava, porém respeitando a
individualidade de seu filho e agora mestre e companheiro de Judô
nunca mais tocara no assunto.
Teru
terminara o High School e agora cursava o College, depois daquele
desagradável incidente do braço quebrado, se afastara de todos e vivia
sempre sozinho, evitando contatos com qualquer outro estudante, não
falava ou conversava com ninguém e seu tempo era todo em diálogos com
a grande Pérola Negra que sempre lhe contava das tradições Polinésias
e as belezas que aquele local encerra.
A
grande Pérola Negra, ia transmitindo a Teru seus poderes, que o iam
tornando uma pessoa muito especial, com capacidade de concentração,
percepção e captação de ensinamentos notáveis, o que o tornava um
estudante admirado por seus professores.
O
College se situava numa cidade mais ao Sul, quase fronteira com o
México, San Diego, onde Teru vivia lá toda a semana, só passando os
fins de semana com seus pais em Newport. Optara pela área técnica,
queria ser arquiteto, via naquela profissão muita coisa ligada ao
Judô, a técnica aliada a arte.
Numa dos
treinos que fazia com Sensei Myamoto, aos finais de semana, puramente
naturais, pois Teru já superara em muito o Mestre, que tinha por ele
grande admiração e respeito, o Mestre Myamoto depois do treino, passou
as mãos de Teru um tubinho de Bambu, muito bem trabalhado, com o
símbolo da Kodo Kan, gravado a fogo na sua parte externa. Teru sabia
bem o que iría receber.
─
Teru,
isto chegou de Tókio esta semana para você, que é bem merecedor!!! E
numa rápida reverencia se encurvou entregando ao tubo de Bambu a Teru.
Teru
abrindo o pequeno tubinho, muito bem acabado, puxou de dentro uma leve
folha de papel de arroz, onde se apunha seu Diploma de 5° Dan do
Judô.
E o
senhor Myamoto, controlando seus sentimentos afirmou a seu filho:
─
Teru,
meu filho, você agora é 5°
Dan, no meu entender até mais, porém reconhecidamente você poderá usar
sua faixa preta neste grau. Foi muita honra para este sensei ter tido
você meu filho, como aluno, que superou até as minhas expectativas,
foi o melhor e mais disciplinado aluno que já tive e o único na
América.
Teru lia
nos olhos do velho pai toda aquela emoção e respondia com
agradecimento, atenção e respeito.
─
Meu
honrado pai e sensei, minha vida toda é e será pautada por seus
ensinamentos e reconheço que tive a oportunidade de ter o melhor de
todos os professores de Judô.
E a
maneira tradicional japonesa, pai e filho se cumprimentavam
longamente, cada um admirava em muito e profundamente o outro.
Teru,
notara também no College que os tempos não haviam mudado tanto, as
mesmas maneiras desrespeitosas dos americanos com os japoneses
continuavam. E, isto o afastava mais ainda de ter, ou fazer amigos no
College. Vivia no seu mundo com sua Pérola Negra, sempre em locais
afastados, tranqüilos e calmos.
Usava
camisas muito largas, que não davam em hipótese alguma, a mínima idéia
ou transparecer sua forte musculatura, bem definida e em seus mínimos
detalhes.
Durante
a semana, quando em San Diego, conseguira uma vaga na residência de
uma família japonesa, perto do College, a casa da Família Sato,
velhinhos que admiravam seu hóspede por suas maneiras educadas e
respeitosas, que estudava muito e até tarde da noite e falava sozinho
em seus estudos.
Teru,
acabara fazendo seu primeiro amigo, um japonês franzino, muito magro,
porém muito simpático, o Kuramoto.
Este
nascido no Japão, havia quatro anos, estava na América, viera sozinho
e tudo tinha se tornado muito difícil para ele. Contudo, era um
excelente artista, fazia aquarelas belíssimas, que vendia em lojas de
molduras de San Diego, e com tais recursos tinha condições de viver e
patrocinar seus estudos. Todavia, era muito explorado, seus trabalhos,
depois de emoldurados, eram vendidos para as residências do bairro
rico de La Jolla, por 20 ou 30 vezes mais do que recebia.
Os dois
amigos começaram a estar sempre juntos, Kuramoto sempre muito falante
e Teru ao contrario sempre muito calado, porém gostavam da companhia
um do outro, ainda que com suas grandes diferenças.
Teru
jamais falara ao amigo de seus conhecimentos na arte do Judô ou mesmo
de seus poderes advindos da Grande Pérola Negra. Estavam se preparando
para ingressarem no Curso de Arquitetura.
Kuramoto
admirava muito seu amigo, que era um notável estudante, aplicado,
rápido de raciocínio, porém o que mais o impressionara, como bom
artista e observador que era, que por trás daquelas camisas largonas
que Teru utilizava se encontrava um corpo muito forte e bem definido,
porém nunca tocara no assunto.
Certo
dia na lanchonete do College, ocorreu o que Teru sabia seria
inevitável, e ao invés de acontecer com ele, como sempre pensara,
ocorreu exatamente com seu amigo Kuramoto.
Ao
comprar seu lanche, Kuramoto ao se virar, esbarrara, independente de
sua vontade, não propositadamente, num americano muito forte, que
olhando sua bela camisa imaculada com o lanche do japonês, de imediato
deu um direto no nariz de Kuramoto que caiu ao solo tonto e com o
nariz escorrendo muito sangue, e comentava em altos brados para que
todos ouvissem:
─
Isto é
para vocês macacos nipônicos, traiçoeiros, aprenderem e voltarem para
sua minúscula ilha, na América não há espaço para gente como vocês!!!
Aquilo
desagradara muito a Teru, que se dirigindo ao amigo, levantava-o do
solo e tentava recompô-lo.
O rapaz
americano, achou aquilo ótimo, iría dar a lição, como dizia numa dupla
de nipônicos, e por trás tentou puxar o pescoço de Teru, dizendo:
─
Isto não
é assunto seu, nipônico, vai apanhar também por ter se metido em algo
que não era de sua conta!!!
Teru,
pressentira a intenção do americano e sutilmente, pegara vigorosamente
seu pulso, e num movimento rápido e desconhecido de todos o elevou
sobre seu corpo e o projetou entre as mesas e cadeiras da lanchonete,
e completou para o zonzo e desconcertado americano, que não estava
entendendo como fora naquele local parar.
─
Este
assunto é meu, este rapaz é meu amigo, e pessoas como você deviam ter
vergonha de suas covardias!!!
O
grandalhão americano não estava entendendo nada, todo cheio de Ketchup
e mostarda, tentava se levantar ainda tonto, do meio de mesas e
cadeiras reviradas, quando chegaram os segurança do College, acabando
a confusão.
Se
retirando apoiado por outros colegas, o americano comentou
desafiadoramente:
─
Iremos
nos encontrar, nipônico, no ginásio, e lá só nos dois, darei a lição
que você merece!!!
─
Seja
como você quiser!!! Redargüiu Teru.
Kuramoto
ficara impressionado com Teru, sua rapidez, técnica, defesa e
contra-ataque, seus conhecimentos de atendimentos a golpes
traumáticos. Estancando de imediato o sangue de seu nariz com dois
simples toques em sua testa, e momentos depois estava tranqüilo e sem
muita inchação no local atingido e sem muitas dores.
Teru não
quisera comentar nada com Kuramoto sobre o ocorrido, e quando este
tentou comentar o assunto topou com uma montanha fria de gelo, o que o
levou a desistir de falar sobre o assunto.
Dias
depois no Salão de Ginástica, quando Teru assistia a um treino de
basquete, um professor chamou Teru:
─
Ei, você
japonês, soube que gosta de lutas, então vamos testá-lo, ali é onde
praticamos luta de verdade, greco-romana, e seu colega Jhosh, irá
dar-lhe umas lições!!!
No que o
tal Jhosh, o rapaz grandalhão da cantina, comentou sorrindo:
─
Não lhe
disse que iríamos no encontra nipônico, este será o local onde irei
ensinar-lhe alguns truques!!! Dizendo isto as gargalhadas acompanhados
por todos inclusive o tal professor.
Kuramoto, preocupado com o amigo, ia se retirando para chamar a
segurança, quando ouviu, uma voz fria gélida, dura como aço, dizer-lhe
em puro japonês:
─
Kuramoto
san, fique onde está, segure minha camisa e meu amuleto!!!
Kuramoto
ficara surpreso, como entender aquilo, se encontrara atrás de Teru,
como ele poderia ter visto que iría se retirar, só se tivesse olhos
nas costas, e ainda mais, não havia nem se virado para sair. E, aquela
voz fria, gelada como uma katana, a temida espada samurai.
Sabia
ele agora que seu amigo Teru não era um simples estudante do College.
Teru
agora só com uma calça justa, negra de ginástica, sem a folgada
camisa, surpreendia os americanos, que notavam as perfeitas curvas e
reentrâncias de sua perfeita e bem definida musculatura.
Inegavelmente, Teru era muito forte.
O
americano grandalhão, começara provocar Teru, que entrara no ring de
luta greco-romana, sem nada dizer, e pela primeira vez em sua vida não
cumprimentava seu oponente, pelo contrario, o desprezava.
─
Vou lhe
dar umas lições, nipônico, vai aprender de graça!!! E sorrindo todo
confiante, partiu o grandalhão, com tudo, para cima de Teru.
Teru,
com os olhos fixos e frios, sua calma habitual que não expressava
qualquer sentimento, por dentro se ria daquele espantalho
desengonçado, que mal sabia andar. Ensinar-lhe, só rindo!!!
Ao
tentar agarrar Teru, o grandalhão sem perceber, ou saber como, vira
tudo rodopiar, e de repente uma escuridão.
Se
encontrara desmaiado no Chão, acordando com todos a sua volta olhando
com os olhos arregalados para ele.
Quando
tentou se levantar percebeu que não havia condições, estava
literalmente tonto.
Todos
viram como o japonês levantara facilmente o seu amigo do chão, como se
fora uma folha de papel e rapidamente o projetou no solo do ringe de
forma rápida e contundente o deixando desacordado imediatamente,
levando algum tempo para que ele voltasse a si, e totalmente tonto,
não sendo capaz de se sustentar sozinho.
O tal
professor viu a situação de pena que seu melhor aluno se encontrava,
mal conseguia ficar em pé. Fora tratado como uma criança, o pior foi o
ridículo que o japonês colocou seu melhor aluno, frente a todos que se
encontravam no ginásio.
Não iría
aceitar aquela situação de forma alguma e de maneira ameaçadora partiu
para Teru, afirmando;
─
Japonês
quem vai lhe dar a verdadeira lição serei eu, no meu ginásio ninguém
vai se mostrar!!!
O
professor partira para Teru de forma mais calma, com movimentos
lentos, estudados, no que Teru, pensou sorrindo internamente. Este
pelo menos não é tão afoito, o que será mais divertido e poderei com
ele dar uma bela demonstração de ataque e defesa, o que fará que no
futuro não importunem mais a nós.
O
professor percebeu de imediato pelo olhar frio inexpressivo de Teru
que este japonês era algo bem diferente.
E se
acercando de Teru o segurou pelos pulsos fortemente, a maneira
greco-romana de luta. Teru de forma suave e rápida em um só movimento
se desvencilhara das mãos em seu pulso, completara todo o movimento
colocando o braço do professor para traz numa chave de braço que o fez
ajoelhar, e então largá-lo.
Todos os
presentes olhavam para o professor surpresos, pois quando ele segurava
daquela forma ninguém conseguia soltar-se, e o japonês fizera de forma
tão fácil e rápida que parecia algo muito simples.
O
professor agora encolerizado, partira para Teru sem raciocinar,
tentava segurá-lo e não conseguia, Teru, muito mais ágil e
disciplinado em seus movimentos deixava o professor totalmente
desconcertado.
Porém
chegara a hora de acabar com aquela brincadeira e aplicou uma queda
perfeita caindo com o adversário, já imobilizando-o, e dizendo.
─
O senhor
tem 30 segundos para sair desta posição, caso não o consiga, segundo
as próprias regras de sua luta será considerado perdedor!!!
O
Professor esperneava, se balançava, e nada, era como se 10 toneladas
estivessem sobre seu corpo, e o tempo passou, e o e o professor ficou
no chão desmoralizado, enquanto Teru lentamente saia do ringe e se
dirigia em direção a seu amigo Kuramoto. Que estático estava, como os
demais, e agora sabia ser seu amigo um notável mestre de artes
marciais japonesas. Pela sua maneira e porte, não seria surpresa se
fosse dos melhores mestres do Japão, contudo aquilo o deixava meio sem
entender, pois Terumitsu nunca estivera no Japão???
Todos
viram que o japonês estava calmo, sem uma gota de suor no corpo, como
se acabara de sair de uma simples conversa e não de um embate daquelas
proporções, onde se comportara como uma montanha, dura e fria, seu
semblante nada dizia ou transmitia era como se olhasse para uma
nuvem.
O
professor era o oposto, suado, extenuado, ofegante, era o protótipo do
perdedor. Fora eliminado sumariamente, e era o Campeão Americano de
luta greco-romana.
O
professor aproveitando que Teru se encontrava de costas e se retirando
calmamente, se armou de uma das barras do alteres e partiu de imediato
para atingi-lo na cabeça e pelas costas. Teru, num movimento simples e
rápido se desvencilhou para um dos lados e com a mão aberta e os dedos
esticados atingiu em cheio o plexo do professor que fora se ajoelhando
sem mal conseguir respirar, enquanto a barra dos alteres rolava pelo
chão fazendo o estardalhaço natural quando o metal entra em contato
com algo sólido.
E o
professor perdia de vez a respiração e desmaiava totalmente com os
olhos esbugalhados e abertos.
Os
alunos estavam atônitos, surpresos, o japonês demonstrara uma técnica
nunca vista antes por eles, a calma, o controle, a suavidade dos
movimentos, jamais tinham visto nada igual.
E, mais
surpresos estavam pela deslealdade de seu professor, não tivera a
mínima postura de um perdedor, e partira para agredir o japonês com a
barra do alteres, pelas costas, num ato tipicamente covarde e não de
um professor de luta greco-romana.
Kuramoto
viera rápido e eufórico, ao encontro do amigo, e se curvando muito a
tradicional maneira japonês, dizia respeitosamente:
─
Teru
san, sensei Teru, o senhor é um grande mestre de artes marciais,deve
ser acima de 7°
Dan de Judô, sua técnica é de mestres, só encontrada em nosso Império,
aprendi no Colégio em Kamakura, até faixa marrom, 2°
kyu, e sei que o senhor e um mestre e dos melhores, agora é que
compreendo como pode ver pelas costas!!!
─
Levante-se Kuramoto, você é um honrado japonês, tem suas notáveis
qualidades com seus pincéis e suas tintas e somos antes de tudo bons
amigos!!!
Foi
quando três jovens americanos se dirigiram a Teru, e o cumprimentaram
estendendo suas mãos, dizendo;
─
Terumitsu, você é um lutador dos melhores e leal, nos desculpe a
vergonha de nosso professor, e seria possível você nos ensinar esta
sua luta???
Pela
primeira vez, Teru era tratado decentemente, por americanos de sua
idade, e satisfeito respondeu:
─
Certamente, poderemos ensinar-lhes o Judô, porém antes de tudo o Judô
é uma arte e não uma forma de sair agredindo as pessoas, e como tal
deve ser aprendido e cultivado, por aqueles que a ele se dedicam.
─
É
exatamente isto que desejamos, praticar um esporte sadio, sem
intenções de provocar pessoas ou ser desordeiros.
Teru,
gostou da resposta recebida e junto com os amigos novos e Kuramoto
saiam do ginásio, onde todos estavam totalmente boquiabertos com
aquele japonês que parecia tão franzino dentro daquelas folgadas
camisas que usava e na verdade era muito forte, e extraordinariamente
um grande lutador, de um tipo de luta totalmente desconhecida para
todos eles.