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Pela primeira vez Teru via o seu pai com sua verdadeira faixa, já bem desgastada pelo tempo, e não a preta comum que sempre treinara com ele. Era vermelha com partes brancas intercaladas, de 6° a 8° dan era desta forma e o 9° e 10° Dan, toda vermelha. 

Seu sensei e pai era 7° Dan, e pelo que pode notar, muito respeitado por todos, que se encontravam muito curiosos a respeito de seu filho. 

Teru concentrado pensava, calmamente, é uma grande responsabilidade para mim, ser filho de um grande sensei, tenho que dar o máximo, para honra seu nome!!!

Antes de iniciar a competição, Sensei Myamoto faria com seu filho uma demonstração das principais técnicas de projeção do Judô, conhecida com “NAGE NO KATA”. 

Todos mais uma vez estranharam a faixa branca de Teru, e o senhor Zen, perguntara ao sensei se Terumitsu havia se esquecido de sua faixa, no que o sensei Myamoto respondeu: 

Senhor Zen, nunca dei faixa alguma a meu filho, se ele tiver de recebê-la, será por análise de outros Judocas e senseis, e hoje é este dia, quando terminar esta competição vocês dirão qual é o seu grau de adiantamento no Judô, então a partir dai ele usará a sua faixa. 

Pai e filho, mestre e aluno, iniciaram a demonstração do Nage no Kata, seu pai era o UKE, quem atacava, e Teru o TORI, quem defendia e aplicava as técnicas.

Parecia um balé, movimentos suaves lentos, como se estivessem em câmara-lenta. Perfeitamente entrosados com total harmonia se desenvolviam em finalizações de projeções perfeitas, diria-se ao menos conhecedores da arte que os dois eram um só, interligados apenas pelos movimentos. 

A assistência estava maravilhada, os mais novos jamais haviam visto uma apresentação de Nage no Kata com tamanha qualidade, e os mais idosos, voltavam suas imagens ao passado, quando viviam no Japão, na KODOKAN, o maior centro de Judô na terra do sol nascente, quando seus famosos mestres apresentavam tais técnicas.

A apresentação chegara a seu termino e todos estavam maravilhados e surpresos, o jovem Terumitsu, filho do Sensei Myamoto, era um Judoca e dos melhores, as palmas e as longas referencias, ao estilo japonês, todos se curvando muito, eram a aprovação que o senhor Myamoto esperava para seu filho, e intimamente estava exultante, porém não demonstrara em seu aspecto austero. 

Olhando disfarçadamente para Teru, teve uma grande surpresa, era como se olhasse para uma pedra de gelo. Terumitsu não esboçava nenhuma reação, frio, calmo, preciso em sua postura, foi quando o Pai percebeu que seu filho não era um simples Judoca!!! 

A competição teria seu inicio, a sistemática bem simples, haviam 2 grupos que disputavam entre si e, no final, os vencedores de cada grupo se enfrentariam.

À época o sistema era de ½ (meio) ponto (wasari) e de 1 ponto (hipon), o Judoca que conseguisse um hipon era vencedor e o combate terminava imediatamente. Com meio ponto, wasari, o combate teria seu término tão somente quando expirado o tempo regulamentar e o detentor do wasari dado como vencedor. 

Os juizes eram 2 em cada canto do Tatami, área da competição, e 3 mesários, e o Sensei Myamoto era o chefe dos mesários, o juiz principal. 

Teru ficara no Grupo A, e notara que o japonês maior, 2° dan, ficara no Grupo B. 

O primeiro oponente de Teru, se mostrava muito confiante, lutava curvado, o que fez lembrar as incansáveis orientações de seu sensei, como uma postura vergonhosa para o Judô, e num movimento muito rápido, em segundos, tirando vantagem daquela postura errada do adversário facultando uma fácil entrada, aplicou uma queda perfeita, conhecida com Uchimata-Makikome, projetando seu oponente ao tatami, enquanto o juiz gritava; 

Hipon!!! 

Teru havia vencido facilmente sua primeira luta e com menos de 4 segundos. Seu oponente um faixa preta, e percebera agora, ao lutar com outros Judocas e não seu sensei, que sua técnica era muito boa, podia ver de imediato os defeitos de seus oponentes, com muita facilidade, o que mostrava estar ele bem adiantado no Judô. Tal pensamento o fez ter mais confiança em si, sem contudo, transparecer qualquer reação. 

Teru continuava com a fisionomia de gelo, sem qualquer expressão que tanto impressionara a seu pai e agora a todos os presentes. 

Ao vencer sua primeira luta, sua expressão era nenhuma, estendeu a mão para erguer o adversário caído, sem dizer palavra, apenas no campo da honra, como um autêntico samurai, e isto deixaram a todos jovens e idosos, atônitos, pois perceberam estar a frente de não um simples Judoca. 

Os oponentes de Teru foram sendo eliminados de forma rápida e fácil, todos por hipon e em poucos segundos, seu sensei estava surpreso, sabia que seu Teru, estava bem preparado porém notou que ele era mais do que um Judoca bem treinado, tinha alguma coisa superior. 

E Teru saiu vencedor de seu GRUPO. 

No outro Grupo saia vencedor o japonês 2° dan, que agora Teru sabia seu nome, Kitajima, sua torcida era bem grande, entretanto Teru pode ver diversos defeitos em sua postura, lentidão em aplicar os golpes. Levava apenas vantagem sobre seu tamanho, o que o fez lembrar das palavras de seu sensei, repetidas vezes: 

Judô não é força, é cabeça, inteligência!!! 

O sensei Myamoto, não dissera palavra ao filho, só curvara a cabeça leve e rapidamente, porém Teru o sabia, que seu pai estava exultante. Para Teru, se tornara um hábito, que sabia interpretar as emoções de seu pai, através de seus olhos, o que levou a Mestre Myamoto treinar com Teru de olhos fechados, pois seu filho se tornara um exímio interpretador de movimentos analisando os olhos das pessoas. 

A disputa final era agora ansiosamente aguardada por todos, e Teru já tinha vários admiradores, principalmente aqueles que para ele tinham perdido e o sabiam ser ele um excelente Judoca. Os mais idosos, viam em Teru, o Judoca perfeito, como antigamente o eram, sem vícios e defeitos do Judô mais moderno. Além disto com sua experiência perceberam aquilo que seu sensei bem notara, tinha Teru algo mais em seu poder que normalmente se viam em Judocas excelentes, algo que não puderam explicar, uma força diferente, misteriosa porém muito expressiva. 

Haviam umas 100 pessoas na assistência, todos japoneses, de origem ou descendentes, contudo não havia nenhum americano ou ocidental, e Teru se lembrou de ainda existir aquele sectarismo, o velho modo de pensar que todos os japoneses são traiçoeiros, etc, coisas que já mudara em muito seu modo de pensar pois aprendera lendo, e muito, do que fora a Segunda Grande Guerra no Pacífico. 

Chegara finalmente o momento da disputa final, e os finalistas eram apresentados pelo Juiz principal do tatami: 

Sono hito wa Terumitsu Myamoto decu!!!

Este é Terumitsu Myamoto!!! 

Kitajima san, wa ano hito decu!!!

Aquele é Kitajima!!! 

Ambos cumprimentaram o grande retrato de Mestre Jigoro Kano, o fundador do Judô, que se encontrava na parede principal, e em destaque no Dojo, cumprimentaram os juizes e mesários e por fim um ao outro.

SENSEI GIGORO KANO FUNDADOR DO JUDÔ 

E o Juiz principal deu a ordem de inicio do combate: 

HAJIME!!! 

Kitajima partira rápido, para Teru, na intenção de intimidá-lo. Teru achou aquilo muito infantil e até mesmo gozado, rápida e elegantemente se desviara do oponente que ao passar sentiu um forte puxão, e algo obstando sua base, fazendo se desequilibrar ficando meio desengonçado no meio do tatami, em quanto o juiz gritava;

  Wasari!!! 

Teru não vira naquele momento o ideal para aplicar a queda que desejava e podia ler nos olhos de Kitajima tudo o que ele pretendia fazer, o que demonstrava sua total e indiscutível superioridade frente a seu oponente. 

Todos na assistência estavam perplexos, o filho do sensei Myamoto, o pequeno Teru, com pouco mais de 17 anos, era um Judoca dos mais técnicos que haviam visto. Calmo, sua face era uma geleira, seu porte de uma estátua, seus negros olhos não se moviam era impossível ler suas atitudes ou sentimentos neles, a impressão que se tinha era que ele sabia perfeitamente seu oponente ser totalmente desqualificado para enfrentá-lo. 

Kitajima, já em desespero, confuso, tentou uma queda que para ele era tida como suprema, tinha certeza que agora iría derrubar aquele menino, e para sua surpresa se viu sendo levantado do chão, o teto do dojo ao contrário e de repente olhando para cima o menino segurando firme seu braço para amortecer a sua queda, e ouvindo como um gongo em seus ouvidos o juiz gritando:

  HIPON!!! 

Teru havia aplicado uma técnica, que muito apreciava, uma queda chamada “seoi nage”, uma beleza quando bem aplicada, porém muito difícil de fazer em competição. 

A assistência por uma fração de minuto, se manteve calada, quieta, impávida, aquilo era inacreditável, Kitajima um dos melhores Judocas da colônia de Sacramento, fora eliminado rápido e de forma precisa, por um mestre, e todos irromperam em palmas e manifestações de congratulações a Teru, que estendia sua mão para Kitajima, ajudando-o num gesto honrado de vencedor, a seu oponente levantar. 

Teru sabia agora, que seu sensei e pai, o havia transformado num mestre do Judô, anos de treinos, aulas, conceitos, filosofias, era agora um campeão!!! 

Foi quando se dirigindo a mesa principal levemente se curvou e disse ao Mestre Myamoto: 

Domo arigato, sensei Myamoto!!!

Muito obrigado Professor Myamoto!!! 

Seu pai e Sensei, não dissera palavra, se curvara ao filho, da mesma forma, agradecendo o cumprimento, e de seu Kimono, internamente, tirou uma faixa preta que colocou na cintura de Teru. Numa das pontas tinha bordada em letras “Kanji”, as palavras “Kodokan-Judô”, e na outra extremidade com a mesma escrita a palavra “ Terumitsu”.

Os demais juizes e mesários se dirigiram a Teru, com um belo troféu, e na sua faixa colocaram na extremidade junto a seu nome duas fitas brancas, agora ele era faixa preta 2° Dan, porém todos sabiam ser ele mais adiantado que isto, entretanto a pedido do Sensei Myamoto deram a ele só o segundo dan do Judô de Kodo kan... 

Kitajima, respeitosamente cumprimentou Teru dizendo: 

Terumitsu san, foi uma grande honra para mim, ter lutado com o mais completo oponente que conheci!!!

Kitajima san, disse Teru, a honra foi minha em poder ter feito esta disputa com um honrado oponente!!! 

E, a maneira tradicional se curvaram um para o outro, o verdadeiro espírito do Judô se fazia presente. 

Do quarto de Teru a Pérola Negra se encontrava surpresa, mal acreditava nos poderes que havia recebido do Grande TIKI, podia assistir a tudo e mais ainda, dar seu poder a Teru, e via seu amigo receber a faixa preta de 2° Dan, e um troféu quase do tamanho dele, aquilo era fantástico!!! 

Compreendera que mesmo a distância Teru e ela eram um só pensamento e isto a deixou muito alegre pois seu destino estaria intimamente ligado ao de Terumitsu Sekito, o menino franzino que a havia achado. 

No domingo pela manha, o Senhor Myamoto e Teru, agora por todos admirado, deixavam a cidade de Sacramento e retornavam a sua casa em Newport, como sempre, pai e filho guardavam muito silencio, quase não falavam, porém Teru notara que seu pai e mestre, estava muito orgulhoso dele, os seus olhos o diziam, que entretanto fingia não entender, e o Senhor Myamoto, com um leve sorriso curto entre os lábios, sabia que Teru entendia muito bem e pensava. 

Isto é que fará de Teru um grande mestre, ele consegue ler nos olhos das pessoas e só os grandes mestres do Judô o conseguem fazê-lo. E isto lhe será útil em toda sua vida. 

Quando ao findar do dia e o início da noite se anunciava, chegavam eles à sua bela casa. Teru não dissera nada a Mama Hideo, e foi o senhor Myamoto, que só a noite, com a esposa, tomando o chá, que satisfeito e orgulhoso, comentava os acontecimentos de Sacramento: 

Hideo san, nosso Teru é um mestre no Judô... não tenho a mínima duvida em afirmar que tem as mesmas técnicas que seu pai, contudo há uma força interior nele, que não consigo explicar, que o transformará num dos melhores e maiores, Judocas em toda a história do Judô!!!

É, Myamoto, nosso pequeno Teru, tem algo muito forte dentro dele, como mãe pude perceber desde uns anos para cá, quando ele sozinho em seu quarto, fica falando como se alguém com ele estivesse.

Engraçado Hideo, também percebi este detalhe muitas vezes, até pensei que ele estivesse ficando meio desmiolado, porém percebia que ele pelo contrário é até muito centrado.

Quando no seu quarto, no seu mundo, Teru colocava o grande troféu num canto, e pegara a Pérola Negra, enrolando nos dedos rapidamente como sempre o fazia e comentou com sua bolinha negra: 

É minha negra bolinha, seu amigo é Campeão de Judô e descobri, as técnicas que tenho são muito boas. 

Foi quando pela vez primeira a grande Pérola Negra mentalizou com Teru:

Meu amigo Teru, mesmo daqui estava com você no tatami, nos formamos um só espírito e por isto você lia as mensagens de seus oponentes!!! 

Teru fechando rapidamente, a mão me manteve ligeiramente presa e disparou numa profunda gargalhada. 

Sabia, eu sabia que algo diferente estava me acontecendo, mesmo pensando nas técnicas e livros que aprendi com meu pai e nos escritos não havia como explicar o fato de ler tão claramente as intenções de meus adversários em seus olhos. Pude inclusive perceber, que podia ler nos olhos das pessoas, suas intenções e sentimentos.. isto não era normal...

E abrindo sua mão,olhando para mim em sua palma afirmava:

Minha fantástica bolinha negra, este poder tenho certeza que você transmitiu para mim, e vamos conversar muito doravante pois jamais estaremos novamente um longe do outro.

Teru e a sua grande Pérola Negra ficaram conversando longamente toda a noite, quando sua bolinha negra contava toda sua história... 

Enquanto no quarto do casal Myamoto, pai e mãe comentavam:

Está ouvindo Hideo san, nosso Teru está falando sozinho e pelo visto se recordando do campeonato de Sacramento!!!

É verdade, Myamoto san, porém parece sempre que ele fala com alguém!!!

Coisas de jovem, Hideo san, coisas de jovem!!!