ATOL DE RIKITEA
Era uma bela
ostra, da Fazenda Rikitea, onde se produziam lindas e grandes pérolas
negras, as maiores da região todavia esta ostra, não produzia nada, os
grãos de areia nela introduzidos não surtiam o efeito desejado.
A ostra
ficava triste, tinha tudo, beleza, tamanho da maiores e não tinha sua
pérola.
Suas
companheiras riam-se dela e caçoavam...
─
Então
Madame, não vai fazer nem uma pequena pérola...???
A bela
ostra timidamente se refugiava em sua concha e nada dizia...
Numa bela
noite de lua cheia, resolvera solicitar a ajuda ao GRANDE TIKI, o
GUARDIÃO DE Rikitea, implorando seu auxilio.
─
Ó poderoso TIKI, que
guarda nosso atol e minha vida, por favor me ajude a produzir só uma
pérola, nem que para isto tenha que dar a minha vida!!!
Uma voz
forte, grave advinda de um DEUS, mexendo as calmas águas do atol
eclodiu como um eco no interior da bela ostra.
“─
Seu pedido será atendido, justo como você solicitou, quando
terminar a produção de sua pérola e vierem retirá-la, por seu pedido
será o seu fim, entretanto sua Pérola Negra será a mais bela já
produzida por uma ostra e terá qualidades especiais!!!”
E assim se
iniciou a produção da maior PÉROLA NEGRA que superou a todas as
vistas.
O Atol Rikitea e sua incrível fazenda de pérolas negras, era propriedade de
um grupo muito fechado de Polinésios, que somente negociavam a sua
produção com um reduzido número de outros Polinésios de atóis vizinhos
e uma única aldeia em Moorea, e o faziam em troca de alimentos e
materiais para uso em sua grande fazenda, jamais aceitavam qualquer
moeda pelas pérolas,pois feriam o ditame do GRANDE TIKI.
As pérolas
negras produzidas em Rikitea eram valiosíssimas e alcançavam valores
muito expressivos no mercado internacional, porém muito difíceis de
serem encontradas.
Os meses
correram céleres e a bela ostra produzia sua pérola sem que ninguém
tomasse conhecimento. De tão grande tamanho era sua produção, que já
não conseguia nem mais fechar sua concha!!!
Chegara a
época da colheita, no setor da bela ostra, todas felizes entregavam
suas pérolas e chegara a vez da grande ostra. O mergulhador se
extasiou ante o tamanho da pérola produzida e a levou com toda a ostra
a fim de não danificá-la na retirada.
No campo,
tentaram retirar a grande pérola negra porém só sairia se matasse a
ostra. E foi um espanto para todos quando o corpo da ostra saiu
envolvendo a sua produção... a maior PÉROLA NEGRA jamais produzida em
Rikitea!!!
E todos os
Polinésios aclamavam impressionados ;
─
A maior pérola negra
de Rikitea!!!
─
A maior
PÉROLA NEGRA para nascer custou a vida de sua ostra!!!
Na cultura
Polinésia este fato era como se recebesse a determinação do TIKI para
acontecer, e todos agradeciam ao poderoso guardião Polinésio aquela
benção recebida.
Com o últimos
raios de sol varrendo o lindo atol, dourando todas suas areias e águas
a ostra sentiu-se elevar e adentrar a um clarão muito forte, por
frações de segundo se viu transportada e de repente estava num belo e
lindo mar azul, com milhares de ostras, sem telas ou produções.
Peixes
minúsculos e multicoloridos, algas de cores inacreditáveis, corais de
matizes por ela nunca vista, completavam harmoniosamente todo o
ambiente configurando um esplendor jamais alcançado pelos seres
humanos...
E novamente
aquela voz grave se fez presente...
“─
Seja bem-vinda irmã ostra,
você é merecedora desse local, por ter dado a sua vida por sua pérola,
que será totalmente diferente das demais e daqui haverá de acompanhar
toda a sua historia!!!”
E assim se
inicia a história da GRANDE PÉROLA NEGRA... a maior pérola negra
produzida em todo o mundo!!!
Colocadas
todas as pérolas negras da colheita numa bela cesta trançada com fios
de coco, de imediato a grande pérola negra se destacava, por sua cor
beleza e sobretudo tamanho.
E foram
levadas ao chefe de Rikitea para seu conhecimento.
A surpresa
fora geral quando todos viram o tamanho da pérola e contaram a
dificuldade ocorrida e tendo que a ostra ser sacrificada para sua
retirada. O grande chefe compreendera todo o significado do processo e
determinara se colocasse em destaque a ostra que produzira tal pérola
que deveria ser reverenciada sempre e a cada colheita e determinou
fosse feito um saquinho especial de fibra de coco trançada para alojar
a grande pérola negra.
E pela primeira vez a grande pérola percebeu que detinha poderes e poderia
exercê-los...
A idéia
original do Chefe do atol era permanecer esta rara pérola em poder de
Rikitea... porém tempos difíceis se sobrepujaram a sua vontade e não
houve outra alternativa que não fosse transacionar a grande pérola
para que a comunidade subsistisse. E o grande chefe tomou aquela
decisão comunicando a sua aldeia.
─
Meu povo, desde a
chegada desta pérola há alguns anos que nossa produção caiu e não
temos outra alternativa se não negociarmos esta grande pérola negra,
temos observado que ai está a determinação de nosso poderoso TIKI,
nosso guardião.
─
Assim não nos resta
outra alternativa que seja comercializá-la, e o faremos com Chefe
Viritua de Moorea, que saberá dar o devido valor a esta pérola do
grande TIKI.
No domingo
subseqüente chegara a Rikitea, o conhecido chefe de Moorea, muito
respeitado por todos e quando ele vinha pessoalmente a Rikitea era com
muita honra que o atol o recebia.
Chefe Viritua,
vinha com umas 20 canoas, e parecia disposto a uma grande negociação,
face ao volumes que traziam em suas canoas.
O Chefe de
Rikitea fora recebê-lo pessoalmente na praia e ficou perplexo face as
palavras do grande Chefe Viritua.
─
Grande chefe
Rikitea,
vim cumprir uma determinação de nosso poderoso TIKI, há semanas
tivemos uma visão que seu povo estava necessitando de ajuda e que nos
iríamos negociar com o espírito das pérolas negras, justo por isto
aqui me encontro, pois esta nossa negociação será mais importante para
nossa Polinésia do que supomos!!!
O chefe
Rikitea compreendera bem o significado daquelas palavras e convidou o
grande Viritua e sua bela vahine a se dirigirem a sua cabana.
Quando
sentados nas esteiras tomando sua água de coco fresca, foi que chefe
Rikitea mostrou o objeto da viagem.
Abrindo o
saquinho de fibra de coco trançada deixou escorregar sobre as pétalas
de um hibisco branco a grande pérola negra.
O espanto
tomou posse do grande Viritua que reconheceu de imediato a Pérola do
Grande TIKI, tal e qual em seu sonho, tamanho, cor e esplendor...
─
Grande chefe
Rikitea,
é meu destino levar esta pérola negra de seu atol para Moorea, porém
serei tão somente um portador pois o Grande Tiki tem outro destino
para ela!!!
Todavia a
beleza da grande pérola envolvera o grade Chefe e chegando a Moorea
confeccionou um belo colar de conchas e ao seu centro colocara a
grande pérola que por todos era admirada e dava ao grande chefe maior
poder.
E todos
colocavam quanto não deveria custar aquela pérola negra, que só
poderia ser usada por chefes.
Entretanto
desde a chegada da grande pérola negra, que a bela vahine de chefe
Viritua, começara a ficar com a saúde debilitada, uma estranha doença
a havia possuído.
Nas semanas
seguintes o mal se agravara, os medicamentos naturais não surtiam o
menor efeito, e tal situação vinha se ampliando e Chefe Viritua
resolveu levar sua Vahine ao jovem médico francês que havia recém se
instalado em Moorea.
Face a ser o
primeiro médico branco em Moorea, quase não tinha clientes que não
fossem os franceses locais e Dr. Jeanville se encontrava em situação
muito difícil.
Jeanville
navegara em um grande veleiro, como tripulante por todo o Pacífico e
se apaixonara por Moorea, resolvendo ali se fixar, porém não
conseguira muitos clientes.
O povo local
tinha sua medicina própria a base de ervas e não acreditavam na
medicina do homem branco.
Tomando
conhecimento da estranha doença da vahine do chefe Viritua, via
naquela situação uma oportunidade para angariar a confiança do povo
Polinésio já que curando a esposa do grande Chefe as portas se
abririam e ele seria visto como o TAOTE... ( Doutor em Polinésio)
E assim
determinado partiu para fazer uma visita ao grande chefe Viritua e sua
vahine.
Jeanville
visitando ao grande chefe teve acesso depois de longas conversas a sua
vahine e detectou de imediato o mal que a afligia, que para ele não
era novidade, já havia tratado de casos semelhantes em alguns
franceses no Tahiti e em Tahiti nui.
Todavia o
grau de adiantamento da doença requeria um tratamento rápido e
inicialmente uma cirurgia era necessária, seguidamente ficaria sob
seus cuidados médicos diretos em sua residência, pois desejava
acompanhar pessoalmente todo o processo de recuperação da vahine do
grande chefe, seria a abertura que tanto buscara para atender ao povo
local e aquela era sua oportunidade e nada poderia dar errado.
Conversando
com o grande Chefe Viritua foi muito direto e franco;
─
Grande Chefe Viritua,
sua vahine está com um grande mal e sei como curá-la, ou o chefe faz o
que digo ou em semanas sua bela vahine estará com seus antepassados.
Chefe Viritua
já desde há muito pensara no pior e sabia ser o Taoete branco enviado
do grande Tiki, pois ele fazia parte de seu sonho e sabia deveria ser
ele o possuidor da grande pérola, e então disse ao jovem médico:
─
Taote, se minha vahine
em 1 mês estiver curada, lhe darei esta grande pérola negra, símbolo
de meu poder, e você será o taote de nossa vila!!!
Aquilo era
mais que o jovem Jeanville sonhara, além de tratar e ganhar a
confiança dos locais ainda receberia a grande pérola negra.
Em seu
consultório, numa pequena sala de cirurgia, taote fizera a operação
necessária na vahine do grande chefe. Tudo havia corrido com ele
previra e depois em sua própria residência cuidou pessoalmente da
vahine até seu pronto e total restabelecimento.
Chefe Viritua,
se apegara muito ao jovem taote pois vira a abnegação que tinha por
sua cliente e tal fato o deixara muito grato aquele jovem médico
estrangeiro, e a alegria tomou novamente posse da vida do grande chefe
quando sua vahine voltou a vila com o sorriso das brancas areias de
Moorea e a beleza em seus olhos refletiam as águas lindas e azuis do
irmão mar.
Chefe Viritua
cumprira com sua promessa dera a grande pérola negra ao jovem taote e
introduzira ele com o taote de seu povo.
Os pacientes
de taote agora eram muitos, que entusiasmado não media esforços para
atender bem a todos. A própria vahine de Viritua pessoalmente levava
seu povo as mãos de taote por quem nutria grande estima, após seu
rápido restabelecimento.
Entretanto,
as instalações medicas de taote eram pequenas, e não havia espaço para
todos o que dificultava o atendimento como o médico desejava. Teria
que aumentar suas instalações, fazer um grande consultório com
enfermarias e um ambulatório e para tal necessitaria de muito dinheiro
e não via outra saída que não fora a de negociar a grande pérola negra
em Papeete.
A grande
pérola negra já havia se apegado ao taote, que ao cair da noite
sentava à varanda de sua cabana, sentindo a suave brisa das ilhas
Polinésias, admirava o bailar das folhas dos coqueiros sorvendo seu
vinho “bordeaux” e alisava a bela pérola e seus dedos.
Agora seria
vendida, aquela sensação de perda invadia a grande pérola negra que
pressentia adentrar a um mundo de comercio, dinheiro, onde o valor
material era superior ao valor da amizade.
Nesta época
os americanos começavam a descobrir a Polinésia Francesa e
comerciantes vinham com os turistas americanos sempre ao Tahiti para
compras das famosas pérolas negras.
E
aproveitando este instalar de negócios com a América, Taote partiu
para Papeete e numa recém aberta, e bela butique de pérolas negras,
apresentou sua rara jóia de Rikitea.
A surpresa
era de se imaginar pois sabiam os negociantes tratar-se de uma pérola
negra e Rikitea,porém esta era a maior que haviam visto e não tinham a
menor duvida tratar-se da maior pérola negra do mundo.
Nestes dias
um negociador de pérolas negras, muito conhecido na Califórnia, como
Billy “o gordo”, chegara a Papeete, e de imediato fora procurado pelos
intermediários da venda de pérolas e acabou comprando a grande pérola
negra por uma bagatela de 500 mil dólares o maior preço alcançado por
uma pérola negra até aquela data.
Iría agora a
grande pérola negra para a América, distante de suas ilhas, da beleza
das águas onde nascera, deixaria a sua Polinésia Francesa, quando
voltaria a seu paraíso???
Só o Grande
Tiki poderia afirmá-lo, pois para ela seu destino era desconhecido,
porém já traçado pelo Guardião do povo Polinésio, e ela bem o sabia
disto.
“Biily o
Gordo”, avantajado, daí seu nome, transpirava muito e tinha sempre um
lenço em sua mãos para limpar o suor que escorria abundante de seu
pescoço. Na outra mão sempre um charuto velho, entre os dedos,
constantemente apagado, davam a ele um aspecto sujo e mal cheiroso, o
que fazia seus clientes apreçarem seus negócios face a aparência da
péssima figura.
Morava numa
pequena cidade ao sul da Califórnia, na costa e de frente para o mar,
que tinha uma água escura e muito fria, nada igual a Rikitea. Sua
cidade chamava-se Newport, onde moravam pessoas ricas e que gostavam
das pérolas negras que Billy Gordo vendia.
Assim que
Billy chegou a sua casa, colocou a pérola negra numa caixinha de
charão vermelha, acolchoada com pedaços de algodão, e as outras pérola
negras normais sendo colocadas em uma bandeja de veludo e
classificadas por seus tamanhos e colorações.
Nesta
primeira noite na América, quando Billy e seus auxiliares haviam se
retirado barulhos estranhos e muito leves foram sendo feitos e dois
homens apanharam muitas pérolas colocando-as num saco, quando o alarme
da casa foi descuidadamente acionado por um dos homens, que tiveram de
se evadir as pressas ficando em uma das mãos destes, a caixa de charão
com a grande pérola negra.
O barulho do
alarme se confundia com as sirenes dos carros de policia, gritos de
Billy Gordo, e os ladrões saiam em disparada derrubando tudo.
A policia os
localizara e perseguia-os, que pulavam cercas e corriam por terrenos
abandonados. Num destes passar e pular cercas, a caixa de charão se
abriu e a grande pérola negra caiu junto a uma velha cerca de madeira
e lá ficou, já bem distante da casa e loja de Billy o Gordo.
Durante
muitos anos lá ficou a grande pérola negra perdida, os poucos que a
haviam visto afirmavam, que jamais haveria uma pérola negra igual a
que havia sumido.
Dias de sol,
muito calor, dias de chuva e de muito frio, e os tempos se passaram. O
mato subira junto a cerca e as chuvas e terra já quase haviam
enterrado a grande pérola negra, que agora não entendia mais de seu
destino.
Os anos se
passaram, enquanto as outras pérolas eram colocadas a mostra nas
vitrines dos grandes joalheiros do mundo inteiro, a maior pérola negra
do mundo tinha como vitrine uma cerca de madeira velha, lama e mato.
E foi assim
que num belo verão, num dia muito quente, a grande pérola começou a
ouvir vozes junto a ela. Era uma família de japoneses que haviam
adquirido o terreno construindo a frente uma bela casa japonesa e um
belo jardim, todavia o terreno dos fundos da casa ficara para ser
trabalhado posteriormente e agora chegara a hora de acertar a parte de
trás onde se encontrava a grande pérola negra.
Os japoneses
eram a família SEKITO, o pai a mãe e um menino. O único filho do casal
chamava-se Terumitsu.
O Pai era
especialista em Bonsai, e ganhara muito prestigio em Newport por suas
belíssimas peças, a mãe eximia mestra na arte do Ikebana, encantara a
sociedade local, sendo a arte do casal muitíssimo apreciada.
Bonsai
Num belo dia
pela manha o pai chamou Terumitsu e o encarregou de limpar o terreno
dos fundos da casa, junto a cerca, lá seria feito um belo jardim
japonês, com um pequeno lago, água correndo, pedras e um local para
colocar os Bonsai.
Terumitsu
começou a limpar o mato junto a cerca e de repente viu uma linda
bolinha quase negra, lavou-a, limpou-a da lama e terra e a colocou
feliz da vida em seu bolso.