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O batismo do “Windsong” iría ocorrer no próximo sábado, com o vice-governador da ilha, amigos e convidados. Agora, chegara a minha hora. Eu e a bancada seríamos colocados nos nossos novos locais. A bancada, por seu muito pesada e grande, estava sendo desmontada e seria toda montada definitivamente no seu local, já com as bases especiais nos seus pés. A bancada saiu primeiro, toda desmontada, mas feliz da vida, iría encontrar com seus amigos, e estava morrendo de curiosidade para conhecer a nova oficina que todos diziam ter ficado, o melhor local de todo o “Windsong”. Ao me descer, John estava todo satisfeito. Ficaríamos, agora, juntos todo o tempo, como no Britânia. Ele pessoalmente e os dois marujos me carregavam até o “Windsong”. Fiquei olhando para o meu lugar, quantos anos, quantas histórias e conversas, aquele meu gostoso lugar de onde via tudo e todos. Agora era tempo de um lugar novo e com o mesmo carinho, preparado para mim, e lá fui eu para o meu berço, minha caminha. Meu berço ficara perfeito, tudo em mogno e envernizado parecia vidro. Onde eu iría me apoiar, era forrado com um tapete azul, e lateralmente havia presilhas, que com fortes cabos se prendiam à capa que John fizera, agora reforçadas, não sairia dali nem com o grande vento. Em local de destaque, a minha plaquinha de bronze polida, que parecia um espelho com aqueles dizeres que tanto gostava: “Pequeno Guardian”, último barco construído por “Mestre Estevão”. E o sábado chegara. Todos alegres, satisfeitos, o “Windsong” estava prestes a ser batizado. Uma bela garrafa de champanhe, pendurada a sua proa, e bem forrada para não arranhar a pintura, e a Madrinha, com Sir Phill, em cima da proa que todos no cais vissem. Darling estava linda, com seus cabelos vermelhos, puxou a cordinha e pluff!!! As sirenes do estaleiro soaram e todos batiam palmas, e gritavam: ─ Hurra ! Hurra! Hurra ao “Windsong”. Na oficina, eu e também todos gritavam: ─ Hurra! Hurra! Hurra ao nosso amigão “Windsong”!
O grande motor Perkins, fazia seu barulho, entrando em funcionamento, tudo perfeito, e o “Windsong” estava feliz, impecável, majestoso, impotente, o mais belo veleiro que todos tinham visto. O vice-governador, Almirante Smith, passara às mãos de Phill, oficialmente e com prazer, toda a documentação do “Windsong”: número de registro, porto de origem, etc... E tudo assinado e chancelado pessoalmente pelo almirante, doravante em todos os portos. O “Windsong” seria conhecido pelo veleiro de Sir Philson Sorensen. Afora isto, ainda entregava cartas de apresentação para os portos das colônias inglesas solicitando todo auxílio fosse emprestado ao nobre inglês. A rainha tinha enviado autorização especial, para que o “Windsong” usasse na sua popa o pavilhão real, branco com a bandeira inglesa, pequena à sua esquerda em cima, e no fundo branco os três leões, tradicionais, em vermelho. Não era de se estranhar, pois o veleiro era capitaneado por Sir Philson e tinha a bordo o Conde de Westerfield.
Phill escrevera à rainha, agradecendo toda a sua atenção e elogiando o Almirante Smith, pelo incansável apoio e colaboração para a construção do “Windsong”, e dizia esperar estar em Londres em três anos. Enviava junto um belo desenho do “Windsong”, feito em bico de pena, por um excelente artista inglês que estava em visita a nossa ilha, e com uma gentil dedicatória assinada por ele e Lady Darling. Toda a tripulação tinha recebido de Lady Darling, um enxoval com camisas, camisetas, bermudas, casacos, etc., com a logomarca do “Windsong” e personalizados com o nome de cada um. Tudo havia sido pensado. Os copos e as louças estavam também com a logomarca do “Windsong”. Durante a noite, tudo muito calmo, todos em sua cabine já dormindo e o vigia Paul se aproximou do “Windsong”, já com seu bordo no cais, e dando seus tapinhas no “Windsong” e alisando sua pintura dizia: ─ E então amigão, na água, todo bonitão, já habitado, pronto e batizado, quantos meses e agora está você aí, um barcão! E o “Windsong” respondeu: ─ Obrigado Paul, muito obrigado, mas não saí por aí apitando, não, está bem? O vigia deixou a lanterna cair no chão, ficou parado, imóvel branco, e ia colocar o apito na boca quando o “Windsong” repetiu: ─ Nada de apito, já te pedi, e não é a primeira vez que falo com você. Quando cheguei aqui, ainda peças de madeira, falei com você e deu no que deu, agora não apita, combinado? O vigia Paul não disse nada, e o “Windsong” continuou a falar. Ele foi ficando mais calmo, sentou-se e foi iniciando sua conversa, que aos poucos se tornara mais tranqüila. ─ É “Windsong”, nunca pensei que conversaria com você, e quantas vezes falei e você não respondeu! ─ Lógico Paul, você sempre com outros vigias, iam dizer que era fantasma e essas coisas. Assim, agora não, e daqui alguns dias partirei deixando pelo menos você sabendo que sempre gostei daquele seu jeitão de bater no meu casco dizendo: ─ E aí barcão! Conversamos muito só não falei da oficina e do “Pequeno Guardian”, que aí ia ser muito complicado, e como o pessoal fala, tudo a seu tempo, tudo a seu tempo... Domingo, pela manhã, um belo dia, festa de sol, vento brando, o “Windsong”, com sua tripulação e convidados Dona Rebeca, Larry e Dra. Karen, suavemente saía da nossa baia, cruzava o passe, e ganhava o marzão. As velas subindo, na proa uma grande genoa, a mestra, a mezena, tudo em cima e começamos suaves, elegantes a fazer a primeira velejada. O “Windsong” estava todo feliz. ─ “Pequeno Guardian”, ferramentas, estou velejando muito bem! ─ É “Windsong”, dizia, agora você vai aos poucos vendo o que é melhor, do jeito que anda mais depressa, mais folgado e com o tempo você vai dizendo isto ao pessoal do timão. E nós exultantes, todos na oficina não cabiam em si, todos viam, agora, o mar de perto, de pertinho. A lamparina, no salão, inclinada e achava aquilo gozadíssimo, porque ela sempre voltava para a posição vertical. O “Windsong”, agora, andava mais rápido e todos calados ouviam aquele barulho no casco. ─ Schuá! Schuá! Schuá! O barcão ia singrando o mar de nossa ilha. O primeiro contato com o veleiro e sua tripulação Phill manobrava com perícia o timão, almirantado, todo de carvalho e, no seu pedestal, uma caixinha muito bem entalhada e dentro o binóculo oferta do pessoal do Britânia.
Nanú ao lado de Phill, o conde e John sentados junto a mim, para trabalhar nas escotas, e o “Windsong” já estava voando, fazia 12 nós, um bom desempenho para a primeira velejada. Numa orça forçada, para adernar bem, o “Windsong” inclinava mas todos gostavam, era farra, o martelo se divertia como nunca, ria à toa, dizendo: ─ Lá vai! Lá vai! ÔÔÔôôô! A dona bancada feliz, dizia: ─ É amigos, após construirmos tantos barcos, acabamos fazendo o nosso. E agora somos uma oficina ambulante. Dona Rebeca pedindo licença, se dirigiu à cabine e foi à oficina e ria da nossa felicidade. ─ Então amigos, como é que vocês estão? E o martelo rindo a valer, dizia: ─ Tudo bem Dona Rebeca, o problema é o seu grande serrote que está tonto, meio esverdeado, acho que está mareado. E o grande serrote dizia: ─ Nada disto Dona Rebeca, é história do seu martelo, desde que chegamos na oficina flutuante que ele não pára de pegar no meu cabo! E o torno rindo, dizia: ─ É meu amigo, ele está indo à forra! A bancada ria, mais ria tanto, como nunca. Dona Rebeca percebera que a oficina mudara, era outra, seus amigos construíram seu próprio barco, sua casa, como eles diziam, a oficina flutuante, os momentos vividos por todos neste pequeno passeio já mostrava o futuro para eles reservado. Ao iniciar a volta para a ilha, trocara a genoa pelo balão e começamos a navegar com o vento de popa. O balão era lindo, branco com frisos laterais vermelhos, azuis e, ao centro, escrito no espaço enorme branco, em letras azuis bem grandes: “Windsong” O pessoal do estaleiro, todos com suas famílias, o viam chegando com o balão todo aberto, o “Windsong”, fruto do seu trabalho, o primeiro grande veleiro que haviam construído, e sabiam que outros, muitos outros fariam, pois o “Windsong” era a maior propaganda dos bons serviços que no nosso estaleiro fazia. Ao abaixarmos as velas, o motor entrou em funcionamento, e entramos na baía. E devagar, muito lento, fomos chegando ao nosso cais. As defensas foram colocadas e o “Windsong” foi chegando, parando e as amarras lançadas para o pessoal de terra que batia muitas palmas para a nossa chegada. O relógio da matriz dava a badalada das 17 horas, quando Phill desligava o motor do “Windsong”. Nas últimas três semanas, foram acertadas as coisas, no estaleiro, na casa de Phill e na casinha do Projeto “Windsong” . Todas as providências tomadas e a instalação final dos instrumentos. O “Windsong” agora estava bem equipado com o que havia de mais moderno, inclusive um rádio muito potente que poderia falar com o estaleiro, de qualquer lugar onde estivéssemos. No local onde ficara a oficina, agora uma bela sala, e um mapa─ mundi muito grande, onde Dona Rebeca iría colocando o trajeto do “Windsong”, locais e datas. Phill e John haviam construído o mapa, em relevo, com uma bela pintura, e em cima entalhado estava escrito: “A viagem do Windsong". Na mesa de reunião, bem no centro, um modelo perfeito do “Windsong”, aquela seria a sala dele, ali teria tudo sobre sua viagem. O rumo projetado inicialmente seria fazer toda a Polinésia até às Ilhas Marquesas, de lá para Ilhas Galápagos, costa da América Central, e atravessar o Canal do Panamá, as Ilhas do Caribe e, então, rumo direto para Inglaterra.
Num dia de sábado, por volta das 10 horas da manhã, todos estavam no cais do estaleiro e a tripulação toda, com a mesma roupa, foi subindo no “Windsong”, todos com muitos colares de conchas no pescoço e John era o que mais tinha, chegava a ficar com o peito todo coberto de conchinhas. Margarida ria, mas no nariz o lencinho, e fomos soltando nossas amarras, fomos saindo pelo passe e todos nos acenavam com lenços brancos. As sirenes do estaleiro tocavam sem parar, enquanto da vice-governadoria os canhões davam salvas de tiros e toda a guarnição da nossa ilha, tendo à frente o Almirante Smith, perfilados, prestavam continência ao “Windsong”, que também fazia soar suas buzinas. Foi quando o “Windsong” falou para todos: ─ Meus queridos amigos, agora somos nós e o mar pela frente! A condessa tomou o maior susto e se agarrando a Darling exclamou: ─ Minha filha, o “Windsong” falou, vocês ouviram? O conde comentou: ─ Querida esposa, só quem não fala com todas as coisas que estão no “Windsong” é você, mas tudo a seu tempo! Tudo a seu tempo! Todos explodiam de tanto rir. E pegando a condessa pela mão, vieram sentar-se bem perto de mim. ─ E então “Pequeno Guardian”, como é que você está se sentindo? ─ Feliz, conde, muito feliz com todos os meus amigos juntos. A condessa, ao nosso lado, e partindo para velejar o mundo. Eu sempre, sempre mesmo, protegendo a todos e os fazendo felizes! E todos me olhando, falaram a uma só voz: ─ Este é o nosso “Pequeno Guardian”! Hurra! Hurra! Hurra! Foi quando o rádio começou a falar, era a voz simpática de Dona Rebeca: ─ “Windsong”! “Windsong”! Estaleiro chamando! E Phill respondeu: ─ Estaleiro! Estaleiro! “Windsong” na escuta! ─ Phill, Darling, John, Nanú, conde, condessa, “Pequeno Guardian”, ferramentas e “Windsong”, eu, Larry, Karen, Margarida e a sociedade anônima queríamos desejar, nesta nossa primeira chamada, toda a felicidade do mundo, para todos vocês, nessa viagem que agora se inicia. E Phill respondeu: ─ Obrigado Rebeca, muito obrigado, em nome de todos do “Windsong”. Um forte abraço a você e todos nossos queridos amigos da sociedade anônima. Todos repararam que, pela primeira vez, Dona Rebeca chamara todos pelo nome e Phill fizera o mesmo, coisa só de muito bons amigos. O mundo iría agora conhecer o “Windsong” e, lógico, a mim, o “Pequeno Guardian”, a oficina e os meus amigos, e quantas aventuras iríamos viver. “As Aventuras do Pequeno Guardian”, euzinho, mesminho! A ilha foi se distanciando, virando um pequeno ponto no horizonte e desapareceu. Estávamos agora com o mar, o céu e um lindo dia de sol e, com minha proteção, íamos abençoados pela mão de Deus, que no final é quem tudo faz.
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