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Os dois oficiais selaram este diálogo com um forte aperto de mãos, extensivo ao Capitão Viritua, Nanú, e o mesmo fazendo todos os oficiais do Britânia, enquanto o capitão os ia nomeando e apresentando.

O chefe Viritua e sua esposa, ainda um pouco recuados, tinham os olhos vermelhos, face a emoção quando da homenagem a seu filho, pelos reais oficiais, e o velho confessava à sua companheira.

─ Hoje vou retribuir a esse capitão a homenagem feita a Nanú. Ele nunca mais irá esquecer de Moorea, em toda sua vida!

E o chefe se dirigiu, então, a todos para abraçá-los e cumprimentá-los, com os olhos ainda inchados, o que Phill notou e Nanú comentou:

─ O chefe meu pai e minha mãe foram sempre assim. Desde que era menino, que os vi sempre chorarem muito!

Phill, Nanú e Darling formavam um grupo. Chefe Viritua e esposa do chefe e o capitão do Britânia outro grupo.

Os oficiais e lindas vahines, que os acompanhavam o último grupo.

O chefe convidara a todos para conhecerem a vila.

As casas eram fantásticas. As pilastras em troncos de coqueiros trabalhados. O chão de pedras polidas. As paredes de uma espécie de bambu trançado. Dentro, as cortinas e portas eram de tecidos coloridos como os pareôs que as vahines usavam. Tudo muito limpo e perfumado, e decorado com belíssimos arranjos de flores.

O chefe ia apresentando sua gente e dizendo o que de melhor faziam.

─ Este é o nosso mais famoso tatuador. Muita gente vem das outras ilhas, para que ele faça suas tatuagens. No meio da casa do tatuador famoso estavam suas ferramentas de trabalho, impecavelmente limpas e arrumadas.

Todas as casas possuíam um segundo pavimento, com estranhas escadas de troncos de árvores grossos, onde eram esculpidos os degraus. E cada casa possuía uma escada de tronco diferente. O capitão notou bem aquele detalhe, que chamou muita atenção pelos belíssimos desenhos e os encaixes das madeiras. Os troncos com os pilares, firmados por fortes cordas trançadas com fibras de casca de côco, com lindos nós de acabamento.

Em cada casa da vila onde paravam, o capitão e os oficiais recebiam diversas lembranças, esculturas de madeira, de pedras, todas artisticamente trabalhadas, e a figura central era sempre a mesma e constante em todas as peças, o Tiki, o deus polinésio, da boa sorte, o guardião, o protetor.

Os tripulantes do Britânia nunca haviam visto nada parecido, e jamais tinham sido, em lugar algum onde estiveram, tão bem tratados, de forma tão amiga e simpática, como em Moorea.

O capitão era todo surpresa, no que Phill notando comentou:

─ Capitão, esta é a tradicional e incomparável hospitalidade polinésia, e em Moorea é inigualável!

─ É Sir Phill, estou percebendo e além de admirado, encantado!

Após visitarem todas as casas, o grupo foi levado a um grande campo aberto, com pedras arrumadas, formando largas paredes, cerca de 1.50 m de largura por l.00 m de altura, desenhando um gigantesco quadrado, e no meio uma pedra, que se assemelhando a uma seta, apontava na direção de uma grande montanha que se elevava imponente ao fundo.

E o chefe se dirigindo a todos os convidados disse:

─ Este é o nosso “Maraé”, local sagrado, onde nossos antepassados faziam seus sacrifícios. Este local é “Tabú” para todos nós, porque aqui estão enterrados todos aqueles que foram sacrificados.

Ninguém dissera nada. Todos respeitaram o local, o “Maraé”. Phill se adiantou e colocou uma pequena pedrinha no muro, e fazendo um leve sinal, todos colocaram também suas pedrinhas: Lady Darling, o capitão e todos os oficiais.

Quando acabaram de colocar as pedrinhas no grande muro, os polinésios liderados por seu chefe bateram três vezes, fortes palmas.

E Phill explicou a todos:

─ Homenageamos os mortos em sacrifício, que por sua vez, nos trarão sempre muita sorte em nossas vidas, a partir de agora!

Já eram quase 15 horas, quando todos se dirigiram a uma grande cabana, sem paredes, coberta com folhas de coqueiros trançados. Ao centro no chão, uma base em folhas de bananeiras, e sobre elas um trançado verde de folhas de coqueiro, mas de forma diferente, muito mais bem elaborada, tudo muito decorado com flores e locais discretamente marcados. Pedaços de ossos finos, compridos, brancos e muito polidos, como espetos e cabaças e casca de coco, polidas, tudo impecável, era a mesa do banquete.

Neste momento escutou-se barulhos de automóveis vindo da parte de trás da vila, e o chefe Viritua comentou:

─ É o Governador das Ilhas e sua comitiva. Jamais chegam no horário, sempre atrasados! E comentou:

─ Os franceses acham elegante chegar atrasados, fazer todos esperarem por eles!

Fato que Phill comentou sutilmente com Darling:

─ Por essas e outras é que os franceses, no futuro, terão problemas nas suas ilhas!

O Governador chegara com sua comitiva. Ele, um capitão e seis oficiais, que tinham cinturões com pistolas. O chefe o fôra receber com alguns fortíssimos “tanes”, com potentes clavas nas mãos, e o Capitão Viritua fardado e portando na cintura uma pistola Mauser 45.

As vahines, quando a comitiva chegou à cabana, onde seria servido o banquete, colocavam nos franceses colares simples de flores, sem aqueles fartos e simpáticos sorrisos.

O capitão aproveitou a oportunidade e comentou com Phill em baixa voz:

─ Sir Phill, que grande diferença. Nós vestidos com lindas flores, recebidos com largo e amáveis sorrisos e por belas vahines e a comitiva francesa sendo recebida por homens fortíssimos, com clavas na mão e um oficial inglês fardado com arma na cintura. Pelo que posso notar o pessoal não gosta muito dos franceses!

─ Capitão, como há pouco comentava com Darling, pelo que conheço dos polinésios, o governo francês terá grandes problemas em suas ilhas no futuro!

Os oficiais do Britânia estavam chocados com aquilo, e o oficial imediato mais surpreso ainda, comentou em voz baixa com os seus oficiais:

─ Falaremos com os franceses o estritamente necessário. Nossa conversa será sempre franca e aberta com os polinésios, donos da casa e excelentes anfitriões!

O recado fôra dado e todos os oficiais ingleses o entenderam bem.

O almirante francês era muito simpático; conversava, ria e os outros oficiais não. Justo ao contrário, não mostravam os dentes. Estavam ali por obrigação. Achavam tudo aquilo muito cansativo e chato.

Phill cumprimento solenemente toda a comitiva francesa e os recém chegados notaram que ele trajava o mesmo uniforme que o local, filho do chefe, inclusive com as insígnias do mesmo barco.

E o governador o apresentou:

─ Senhores oficiais, este é o Lorde Philson Sorensen, Capitão da Real Armada Inglesa e o maior herói vivo da Guerra do Pacífico, que com sua esposa Lady Darling, estão fazendo sua viagem de núpcias no Iate Real Britânia!

Phill, à maneira militar, apresentou o capitão e seus oficiais do Britânia, cumprimentaram os oficiais franceses e completou:

─ Provavelmente os senhores já conhecem o Capitão Nanú, meu Imediato na lancha torpedeira, Vovô, e um dos oficiais mais destacados e brilhantes da Guerra do Pacífico!

Os franceses perceberam que Nanú não era tão somente o filho do Chefe Viritua. O gigante polinésio era tanto herói quanto Sir Philson.

Todos foram tomando seus lugares à mesa. O chefe e sua esposa; do lado dela Darling e Phill com Nanú. Do lado do chefe, o governador e seus oficiais franceses. Em frente ao chefe, o capitão e seus oficiais, só que com uma diferença: ao lado de cada oficial do Britânia, uma belíssima vahine como parceira de mesa. O que levou o capitão francês, em sua língua, a comentar com seus oficiais.

─ Quando estivemos aqui, nunca fomos tratados assim como estes ingleses que chegaram ontem e já são os queridinhos!

O oficial imediato, num francês impecável, respondeu direto ao capitão francês:

─ É capitão, nós só vamos às festas importantes com o nosso primeiro uniforme a fim de honrar nosso anfitrião, e não armados para afrontarmos!

Foi aquele silêncio profundo, ninguém disse nada e o governador francês deu uma olhada séria para seu capitão e oficiais dizendo:

─ Capitão, recolham suas armas ao veículo, e quebrando o gelo falou:

─ Chefe Viritua, para mim e o governo francês, é uma grande honra e prazer estar na sua ilha, e nesta maravilhosa festa em homenagem a Sir Philson e senhora. E virando-se para seus oficiais completou: todos nós estamos envaidecidos, sobretudo por estarmos nos confraternizando com os destacados oficiais do Iate Real Britânia!

Fôra dado o recado, agora em alto e bom som, para os oficiais franceses que, de imediato, se desarmaram e mudaram totalmente o seu comportamento.

O Almirante Duvalier era, antes de tudo, um diplomata experiente, e não gostaria de nenhum incidente ou confusão em suas ilhas, principalmente com a oficialidade do Iate Real Inglês e com a presença de Sir Phill. Qualquer situação mais melindrosa, iria trazer para ele complicações terríveis.

A mesa começou a ser servida. O prato principal seria o tradicional porco cozido à moda Polinésia. Era feito um grande buraco no chão, com muita brasa dentro e pedras grandes colocadas sobre as brasas. O porco e outros pratos a serem cozidos, embrulhados em folhas de bananeira e tudo era abafado com areia, e coberto. Ficavam lá cerca de um dia e meio, neste grande forno, e depois retirados e arranjados em belíssimos pratos de madeira, lindamente decorados com belas flores. Sempre muitas flores em tudo. Outros pratos de comida a temperatura ambiente eram servidos, como peixe ao coco, peixe cru à maneira Polinésia, com frutas, etc...

Os polinésios também tinham seu protocolo, só se poderia iniciar a servir os pratos depois que o chefe provasse um pouquinho de todos, que então virando-se para os convidados dizia:

─ Meus amigos, tudo está ótimo, por favor sirvam-se!

E Chefe Viritua o seguiu à risca.

As vahines serviam a todos sorrindo e fartamente.

John, que comigo se sentara no nosso tapete de flores, estava no paraíso. Uma bela vahine o servia, enquanto outra ia e vinha à mesa, trazendo pratos, frutas e sucos.

A vahine, que com ele ficara, sentada no tapete ao seu lado, perguntou por que ele falava tanto sozinho, ao que respondeu:

─ É o hábito de ficar de vigia muitos anos, acabamos falando sozinho, pensando em voz alta, todo o tempo!

Ela não dissera mais nada e aceitou o fato naturalmente, pois os polinésios assim também o faziam, conversando com a lua, estrelas, o mar e seus coqueiros.

Se ela soubesse, e como são supersticiosos os polinésios, a festa de Phill se acabaria em poucos minutos.

Todos comeram como nunca. Ninguém tomava bebidas alcoólicas. O Chefe Viritua servia pessoalmente o capitão do Britânia e sempre, disfarçadamente, sem que ninguém notasse, colocava um pozinho no copo do comandante do Britânia.

Já eram umas 18 horas e todos estavam satisfeitos. Grandes tochas de fogo foram acesas, sobre estacas, em toda a vila, que ficou muito iluminada, e a noite ganhara um colorido belíssimo, com as sombras que bailavam suaves face a luz dançante das labaredas dos tocheiros.

Todos se prepararam para começar a assistir as danças do Tamure. Sentavam-se, agora, num grande círculo, a céu aberto, e cerca de 50 belas vahines com roupas belíssimas e uns longos chapéus cumpridos amarelos, com flores vermelhas, começaram a dançar freneticamente, se balançando muito mais que das vezes anteriores.

Os tambores em grande número, tocavam forte e num compasso maravilhoso.

No início eram músicas referentes ao namoro das vahines com os tanes, quando estes também dançando rápida e freneticamente mexiam suas pernas numa velocidade incrível. Depois foram danças das lendas polinésias, da grande pérola, quando de dentro saía uma linda vahine, toda vestida de branco com os cabelos pretos, soltos e muitos longos.

A dança do grande navegador que fôra para o mar e nunca mais voltara, cujo Tane que representava o navegador tinha em seu rosto uma pintura negra de um lado ao outro como tapando seus olhos.

A lenda do romance entre o sol e a lua, a dança da caça ao grande tubarão.

Enfim, coisas belíssimas, indescritíveis. Os dançarinos trocavam rapidamente de roupa, sem que se percebesse. Vestimentas variadas e de rara beleza, próprias para cada apresentação, que deixavam os convidados entusiasmados com tanta beleza.

O Capitão do Britânia, quando começaram as danças, sentiu muito sono e o próprio Chefe Viritua o levou para sua cabana, tirando seu belo casaco e o deitando.

Chamando o grande tatuador, explicou o que queria:

─ Faça uma bela e grande tatuagem no sei peito, um Tiki sentado sobre o distintivo da grande canoa inglesa: (as insígnias do Iate
Real).

E o tatuador comentou:

─ Chefe, preciso de umas 3 horas para fazer esta tatuagem, para que fique perfeita!

─ Não há problema, pois as danças irão demorar a terminar, quando, então, o capitão acordará! Limpe bem toda a tatuagem, depois coloque muito óleo de côco, para não deixar uma gota de sangue sair, e o vista com seu casaco. Ele só notará à noite quando for dormir.

Phill estranhara o mal estar súbito do capitão e comentou com Nanú:

─ Nanú, o que está havendo com nosso capitão?

─ Phill, papai está dando ao capitão o maior presente da vida dele, que jamais esquecerá Moorea. E vocês terão todos uma grande surpresa ao fim desta noite. Papai admirou muito o capitão.

Phill entendera tudo. Aquilo seria inesquecível para o capitão e com todo respeito e carinho do povo polinésio.

Quando o Chefe Viritua, sua esposa e dois fortes tanes saíram segurando o capitão, o imediato e oficiais olharam de pronto para Phill, que comentou:

─ Não se preocupem, o capitão está um pouco sonolento porque comeu muito. O próprio Chefe Viritua cuidará dele com a esposa, em sua cabana.

Aquilo soara meio estranho para os oficiais ingleses, contudo como colocado confiantemente por Sir Phill, e como o capitão tinha se deliciado com os prato polinésios, aliás como todos, aceitaram a resposta do lorde.

Quando o Chefe Viritua retornou, após algum tempo, tranqüilizou os oficiais do Britânia:

─ O capitão está agora dormindo. Minha vahine está a seu lado, atenta para qualquer coisa se ele acordar.

E sabia que ele não acordaria tão cedo.  

As danças se seguiam, umas às outras, chamando a atenção dos oficiais do Britânia. E no final, encerrando o espetáculo, os tambores começaram a tocar mais rápido, num som muito forte, mais bruto, e 30 tanes entraram no grande círculo, segurando paus longos e em cada extremidade tochas de fogo. Rodavam estes paus, segurando pelo meio, com tanta velocidade que formavam belíssimos círculos de fogo, em seus simétricos desenhos. Depois, jogavam estes paus rodando, uns para os outros, com uma prática assustadora.

De repente, os tambores começaram a tocar muito mais forte. Os tanes foram abrindo como uma roda e não se sabendo de onde viera, apareceu nesta grande roda um gigante polinésio: era Nanú!

Ele com dois paus com fogo nas pontas, rodava com uma perícia incrível. Eram dois círculos de fogo girando nas suas fortes mãos com braços esticados. Jogava um para o alto e o outro rodava a sua cintura e, depois, os movimentos eram trocados.

Seu corpo suado e com movimentos rápidos demonstrava todos os desenhos de seus definidos e potentes músculos.

Ao terminar sua apresentação, enquanto os outros tanes jogavam os paus com fogo sobre a cabeça do gigante, ele, calmamente, apagava o fogo das pontas das duas tochas, com a mão, sem se queimar. Ele era íntimo do fogo.

Todos ficaram boquiabertos e aplaudiram demoradamente Nanú, que ao sair fôra acompanhado lateralmente pelos tanes, com os paus rodando, fazendo círculos de fogo e ele no centro.

O que valeu o comentário do capitão francês:

─ Se esse gigante faz isto com fogo, imagino o que não faria com um homem!

E todos se riram muito do elogio a Nanú, feito pelo oficial francês, que conversava amavelmente com todos.

A dança do fogo demorou muito tempo, propositadamente. Já há mais de três horas que o capitão estava dormindo.

Chefe Viritua convidou o oficial imediato e Phill para irem com ele à sua cabana, ver como passava o capitão. Chegando à cabana do chefe, o capitão estava fardado e a seu lado a esposa do chefe, com um copo com um líquido branco, o fazia beber.

O capitão tomando o líquido, ao ver Phill e seu imediato disse:

─ Não se preocupem, estou muito bem. E este suco que estou tomando está me deixando ótimo. Estou um pouco é com a barriga e o peito dormente!

E o chefe colocou:

─ O capitão deve ter estranhado um pouco a comida!

Todos acharam graça e, aos poucos, o capitão estava perfeito, como há muito não se sentia.

─ Estou ótimo, novo em folha! E virando-se para a esposa do chefe comentou:

─ A senhora deveria me dar a receita deste suco para distribuir a minha tripulação, algumas vezes, quando eles se sentem cansados.

E todos ficaram alegres em ver que o capitão estava muito bem e voltaram para a grande roda.

Os tambores de imediato tocaram o som do chefe.

Eram 23 horas e o Chefe Viritua, se colocando ao centro do grande círculo, com os seus convidados sentados ao seu redor, falou:

─ Para Moorea e para nossa vila, foi uma grande honra receber tão ilustres visitantes e gostaria que levassem consigo nossa melhor lembrança! Batendo fortes palmas, de imediato, muitas vahines apareceram e cada uma colocou no pescoço de cada um dos presentes um saquinho de fibra de côco trançado, com lindos desenhos.

Darling rindo para Phill já sabia do que se tratava.

John, o meu amigo, como tinha 2 vahines, recebeu 2 saquinhos e pude perceber que os que ele ganhara eram um pouco maiores, o que Phill notando piscou o olho para nós, rindo.

Quando as vahines voltaram a sentar, o chefe continuou sua fala:

─ Gostaria que o capitão da grande canoa real ficasse a meu lado!

O capitão estava se sentindo ótimo, como há muito tempo assim não se encontrava, levantou rápido e se colocou ao lado do chefe, e seu oficial imediato comentou com todos:

─ O capitão está como nunca o vi antes, parece um jovem. Ele está alegre e satisfeito. Desde que voltou da cabana que não pára de falar, até anedotas contou, coisa que não é de seu feitio!

Todos ficaram satisfeitos. O capitão estava com um humor nunca visto. O suco que a esposa do chefe lhe havia dado era um poderoso excitante e também anestesiante da dor.

O chefe bateu palmas novamente e dois fortes tanes apareceram carregando tecidos lindos de pareô, dois saquinhos de fibra de côco e o cajado do Chefe Viritua, que virando-se para o capitão falou:

─ Senhor capitão, para nós o amigo é um grande navegador. As histórias que ouvimos Sir Phill contar da grande canoa inglesa são fantásticas e o senhor jamais esquecerá a nossa ilha Moorea e desta festa, por toda a vida. Estes pareôs significam que as portas de nossa cabana estarão sempre abertas para quando quiser voltar. Os saquinhos, nosso presente, e a minha vila é o seu local quando vier à Polinésia. E deu ao capitão seu cajado de chefe!

O capitão e todos ficaram muito surpresos. Ele agora era irmão dos polinésios de Moorea, para toda a sua vida. A grande honra que todo homem branco, que conhecia as ilhas, sempre sonhou. Sir Phill disse aos oficiais:

O Chefe Viritua gostou muito do capitão, pois é a primeira vez que isto acontece aqui! E todos ficaram muito orgulhosos do capitão, que agradecendo ao Chefe Viritua, ofereceu a ele seu quepe de oficial e tirando de seu uniforme as insígnias do Britânia, também honrou o Chefe Viritua.

Ambos deram um forte abraço, e o capitão sentiu um pouco seu peito e barriga, mas não deu a perceber. O chefe, agora, com o quepe, estava muito feliz e engraçado.

O almirante francês e seus oficiais estavam na lua, pois haviam recebido também aqueles saquinhos e sabiam muito bem de seu conteúdo, e quanto valiam, e virando-se para os seus oficias e a todos disse:

─ De hoje em diante, não se vai a nenhuma festa nestas ilhas, armado, será sempre com o uniforme de gala e Chefe Viritua é a pessoa mais importante em Moorea. Nomeio-o, neste momento, com delegação de poderes que me é dado pelo Governo Francês, Vice-Governador da Ilha de Moorea. Imediatamente, os oficiais franceses se perfilaram e bateram continência ao seu novo comandante.

Sir Phill comentou com Darling:

─ Querida, este almirante acabou de fazer, com diplomacia, o maior feito da história destas ilhas. Enquanto for governador, não terá o mínimo problema com os polinésios.

Chefe Viritua, Nanú, e todos começaram a jogar muitas pétalas de flores nos franceses, enquanto todos os oficiais do Britânia batiam muitas palmas.

Aos poucos a maré fôra subindo e era hora de partir. E todos foram recebendo agora colares de conchas, trançados umas nas outras, fazendo lindos desenhos. Sir Phill, Lady Darling e o capitão foram os que mais colares receberam. Eles eram muito queridos e iriam deixar muitas saudades!

Phill, ao se despedir com um forte abraço de Nanú comentou:

─ Irmão Nanú, breve irei precisar de você para um ambicioso projeto que estou desenvolvendo! Ele respondeu:

─ Irmão Phill, estarei sempre às suas ordens, serei sempre seu imediato!

Ela não tinha a mínima idéia de certeza de suas palavras.

As canoas foram sendo preparadas. Os oficiais sendo carregados até que chegou a minha vez. Me colocaram com John dentro d’água e, desta vez, me amarraram com meu cabo de proa à canoa de Phill. John não precisaria remar, somente timonear. Nanú explicara a Phill, que à noite John não conhecendo bem o caminho poderia esbarrar num beiço de coral, arranhando minha pintura, que era melhor ir a reboque.

John me dizia:

─ É bem melhor assim, “Pequeno Guardian”, pois não corremos nenhum risco, e descanso mais, comi muito!

─ Ótimo John, vamos então passear nesta bonita noite! E eu ficava pensando na velha história da comida: come, vai ao banheiro, lava as mãos, come... 

Os tambores batiam muito quando fomos saindo, deixando a pequena praia. As estacas de flores cravadas nos corais, agora acesas, indicavam nosso caminho. Quando os remos empurravam as canoas, a água ficava cheia de estrelinhas brilhando.

John estava curioso em saber o que havia nos saquinhos, que havia ganho das vahines. E abrindo um viu caíram em suas mãos belíssimas pérolas negras, umas vinte, e fazendo uns cálculos, se o outro saco tivesse a mesma quantidade, teria 40 pérolas negras, que valiam uma fortuna e assustado, surpreso, boquiaberto falou:

─ “Pequeno Guardian”, estou rico, rico, milionário!

─ Por que John?

─ Ganhei dois saquinhos de pérolas negras, umas 40, e isto na Inglaterra vale uma fortuna. Estou rico, rico, rico!

Phill, que notara a movimentação de John, ou melhor sua excitação, comentou baixo nos ouvidos de Darling:

─ Querida, Nanú é realmente um bom amigo, atendeu ao meu pedido e John agora é um homem independente. Nossa tripulação no “Windsong” já está sendo formada, tenho absoluta certeza disto!

E Darling entendendo bem as palavras de Phill, dera um gostoso sorriso para ele e virando-se para Nanú, que os acompanhava na canoa, disse:

─ Marurú! Irmão, Nanú, Marurú! E discretamente mostrava a Nanú a alegria de John. Nanú respondera rindo:

─ Capitão, seu pedido é uma ordem, e por minha conta, caprichei no saquinho do marujo inglês, pois já sei que o senhor tem planos para ele!

Phill ria e pensava. Nanú realmente é extraordinário. 

Logo chegamos ao Britânia. Enquanto John me içava para o meu lugar, Nanú se despediu de Phill, Darling e oficiais, dizendo:

─ Foi muito bom para nós receber todos. Essa festa será inesquecível, principalmente, para o senhor, capitão. Apareçam sempre!

E Phill respondeu:

─ Nos veremos mais rápido do que você pensa Nanú!

E o capitão agradecendo em seu nome e de seus oficiais, disse a ele:

Capitão Nanú, esta festa será inesquecível e principalmente para mim e levantava o cajado do Chefe Viritua.

Nanú, rindo, respondeu:

─ Tenho certeza disso capitão, mais do que o senhor pensa!

O capitão não entendera bem a resposta de Nanú, porém agradeceu muito e todos subiram as escadas do Britânia, enquanto os apitinhos tocavam e eram anunciados os que chegavam a bordo do Iate Real Britânia.

Da murada do Britânia, no segundo convés, todos acenavam para Nanú e as canoas que retornavam à vila.

Todos se despediram e foram para os seus aposentos. Já passava da meia-noite.

Havia transcorrido cerca de meia hora, quando bateram apressadamente na porta da suíte real.

Toc! Toc! Toc! Toc! Sir Phill! Toc! Toc! Toc!

Eram o capitão e alguns oficiais.

Sir Phill, abrindo a porta perguntou:

─ Algum problema? Alguma coisa grave? Estavam todos com caras assustadas. E o capitão falou:

─ Sir Phill, estes saquinhos que ganhamos, são pérolas negras gigantes; eu e meus oficiais estamos milionários. Isto em Londres vale muito mais vezes que ouro!

─ É capitão. Os polinésios gostaram muito dos senhores!

─ Não, Sir Phill, tudo é por sua causa, e se somos agora milionários, devemos tudo ao senhor que desde seu primeiro dia no Britânia, só nos deu alegrias e satisfações. Muito obrigado por tudo! E o capitão e os oficiais iam agradecendo a Sir Phill, apertando sua mão, um por um, dizendo:

─ Obrigado, Sir Phill. Jamais esqueceremos do senhor!

─ Boa-noite, boa-noite a todos e tenham bons sonhos! ─ dizia Phill e todos saíram rindo, alegres.

Phill comentara com Darling que a rainha, em breve, perderia a tripulação do Britânia. Tinha certeza disto, foi quando na porta da suíte Phill ouviu novamente.

Toc! Toc! Toc! Sir Phill! Sir Phill! Era a voz do capitão nervoso. Phill, abrindo a porta, viu o capitão, num belo robe de chambre, e dizendo:

─ Sir Phill, preciso lhe mostrar uma coisa urgente!

Entrou na suíte, fechou rapidamente a porta e abriu o robe, dizendo:

─ Olhe Sir Phill o tamanho desta tatuagem! ─ dizia espantado.

─ Uma beleza capitão, não só grande mas, sobretudo, muito bela, um trabalho de artista! A tatuagem toda negra tinha um belíssimo tiki sentado sobre as insígnias do Iate Real e ocupava todo o peito, tórax e abdômen do capitão, e toda coberta com óleo indolor que realçava ainda mais seu bonito desenho.

─ O senhor sabia disto, Sir Phill?

─ No início não. Porém, quando ficamos preocupados com o senhor muito sonolento, Chefe Nanú me explicou a grande homenagem que seu pai iria prestar-lhe, não o cajado ou pérolas, onde o senhor estiver, como Nanú dissera, o senhor jamais esquecerá Moorea!

─ É Sir Phill, jamais esquecerei mesmo!

E Phill, apanhando uns potinhos, deu ao capitão dizendo:

─ Capitão, durante 5 dias, o senhor não poderá molhar nem apanhar sol na tatuagem e duas vezes por dia passar o creme destes potinhos que são cicatrizantes!

Ambos se riram, e o capitão foi saindo da suíte, dizendo:

─ Para toda a vida! Para toda a vida! Jamais me esquecerei de Moorea! Ah! Ah! Ah! E ria alto e muito.

Darling, que ouvira do quarto toda a conversa, rindo comentou com Phill.

─ Que surpresa para o capitão, hein Phill? Que surpresa!

─ Uma bela surpresa Darling. Ele jamais esquecerá de Moorea! 

No dia seguinte, os oficiais todos do Britânia radiantes de alegria, e os marujos perguntavam a John!

─ Escocês, você também ganhou pérolas negras?

John respondia:

─ Claro que não, eles são oficiais, eu um marujo, um simples marujo!

─ Que pena, John! Se você também as tivesse ganho, hoje seria dono do seu nariz, não seria mais um simples marujo.

─ É verdade. Mas meu negócio é tratar bem do barquinho de Sir Philson!

Quando os marujos saíram perguntei-lhe porque não contara a verdade, e ele me respondeu:

─ “Pequeno Guardian”, estou fazendo planos para o futuro e não gostaria que ninguém desconfiasse deles!

─ Que planos são esses, me conta?

─ Tudo a seu tempo! Tudo a seu tempo, “Pequeno Guardian”!

Eu ria muito. Ele aprendera direitinho nosso modo de ser e agora era meu bom amigo também, e como tal, iría protegê-lo e muito!

Ficara acertado com o capitão, a pedido de Sir Phill, que rumássemos direto para nossa ilha, pois ele teria muitas coisas urgentes a tratar e, ao cair da tarde, com seus apitos característicos o iate Real avisava de sua partida.

Diversas canoas, com os nossos amigos polinésios, nos acompanhavam e nas canoas os oficiais franceses que foram a festa, com os tanes e vahines, agora imensamente amigos e na canoa maior o Chefe Viritua e sua esposa, Nanú e o Governador Almirante Jacques Duvalier com um sorriso que não lhe cabia no rosto.

Flores sendo jogadas na água, todos cantando a canção do adeus. Mãos acenando, o chefe chorando e os franceses dizendo:

─ Merci, merci pour toute! Capitain Phill, bon voyage. Adieu! Adieu!

O Britânia saía do passe com toda sua tripulação perfilada batendo continência. A grande homenagem tradicional do Britânia, e prontamente respondida pelo Chefe Viritua, com a mão esquerda, pois era canhoto e com o quepe do capitão na sua enorme cabeça e muitas lágrimas nos olhos.

O capitão rindo, apontando o dedo para seu peito, dizia para o Chefe o Nanú:

─ Jamais me esquecerei de Moorea, por toda a minha vida!

Phill comentara com Darling que gostaria de ter ficado mais tempo em Moorea para cavalgar as ondas esquerdas de Hapiti e ela, surpresa, perguntou:

─ Cavalgar ondas Phill, como?

─ Darling, eu, Nanú e outros tanes usamos umas longas pranchas de madeira, ocas por dentro, com uma longa quilha, e deslizamos em pé nas cristas das ondas. É uma sensação indescritível e chamamos de “cavalgar nas ondas”.

Inicialmente, este esporte era praticado pelos reis havaianos e, posteriormente, toda a Polinésia adquiriu o hábito. Aqui em Moorea, o melhor local é Hapiti, bem em frente à vila do Chefe Viritua, onde rolam ondas perfeitas.

─ Que maravilhoso, Phill. Fantástico. Nunca ouvira falar sobre isto e você me ensinará também a cavalgar nas ondas?

─ Claro, Darling, claro! E quando voltarmos a Moorea com o “Windsong”, iremos juntos cavalgar nas ondas! E quanto ao “Windsong” já tenho novidades.

─ Quais Phill? Conte, conte!

─ Nossa tripulação já está formada!

─ Como? Se ainda iremos construir o “Windsong”!

─ Isso mesmo, Darling. Nossa tripulação irá ajudar na construção, que é o ideal. Todos conhecendo tudo do veleiro. Vou convidar Nanú e, agora, John, que é um homem rico.

Coisa estranha Phill, quando os marujos perguntaram a ele sobre isso, dissera que não recebera nada, que só os oficiais tinham sido presenteados.

─ Darling, John é muito mais esperto do que se pensa, por isto gostei dele. Ele deve estar fazendo planos, e não quis que ninguém soubesse.

Em dois dias, numa bela manhã, chegávamos a nossa ilha e fiquei pensando como o tempo passara tão rápido. Entrando em nossa baía, as sirenes do estaleiro começaram a soar. Estávamos em casa, novamente!

Logo chegaram as lanchas. A do vice-governador de nossa ilha e a lancha do estaleiro. Quantas saudades do nosso estaleiro, da oficina e dos meus amigos!

Com os tradicionais apitinhos, as pessoas iam sendo anunciadas. As conversas, continências, abraços à rainha que já havia partido, estando alguns dias na Austrália. As ordens eram que a tripulação teria mais quatro dias de folga e se preparasse para o retorno à Inglaterra, via Canal do Panamá, onde embarcariam quatro casais.

Nenhum oficial dissera nada sobre as pérolas negras, só comentaram sobre a festa de Moorea, e as lindas e inesquecíveis vahines. O capitão, com sua nova tatuagem, estava feliz, mas também não comentara nada com ninguém.

Começaram a desembarcar as coisas de Sir Phill e Lady Darling e John colocava-me, suave, no mar, a reboque de nossa lancha. Darling se despedira de toda a tripulação e a convidara para almoçar com ela e Phill daí a três dias, num piquenique, em frente à casa do vovô. Seria dia de folga, descontração, todo mundo bem à vontade, com roupas para banho de mar. Todo mundo gostara do convite e o capitão disse a Phill:

─ Sir Phill, será um enorme prazer, só que tem um pequeno detalhe: a bebida e a comida serão a cargo do Britânia!

─ Combinado capitão! Combinado!

E lá fomos nós para o estaleiro, e John nos dando adeus da amurada, no local que fiquei nos últimos dias, mas ele dissera que viria nos visitar no estaleiro.

Chegando ao nosso píer, lá estavam todos, Margarida, Dona Rebeca, Dr. Larry, Dra. Karen, os mestres, oficiais, assistentes, marujos, todos aguardando o Capitão Phill e sua esposa, Lady Darling. Beijos, abraços, palmas, assobios e hurras. Estes últimos, pude ouvir vindos da oficina que com a barulhada, ninguém escutara nada. E todos diziam na oficina.

─ Hurra! Hurra! Hurra a Phill! Phill chegou!

E o martelo dizia diferente. Isto me contaram depois.

─ Hurra! Hurra! Hurra a Darling! Darling chegou!

O grande serrote pergunta ao martelo:

─ Seu martelo, por que o senhor tem que ser sempre diferente?

─ Ué, eu não tenho culpa de vocês terem esquecido de Darling!

E todos ficaram sem jeito, enquanto o torno falava:

─ É, o seu martelo está mais que certo!

─ Hurra! Hurra! Hurra a Darling! E o martelo agora dizia:

─ Hurra! Hurra! Hurra ao Phill!

─ Este martelo não tem jeito, dizia o grande serrote!

E todo mundo morria de tanto rir. A felicidade era total. Phill e Darling e o “Pequeno Guardian” estavam de volta. E este, com muitas novidades para contar. Pela primeira vez tinha se separado dos amigos.

Phill e Darling falavam alegres com todos. Novidades, perguntas, e Dona Rebeca dizia ter muita coisa para ser vista pelo capitão. Notificava-o que o Conde e a Condessa de Westerfield estavam na Austrália, aguardando encomendas de Londres, e resolveram voltar para nossa ilha e ficariam conosco bastante tempo. O que deixou Darling muito feliz.

Quanto ao resto tudo ia muito bem, só que na velha oficina, isto dissera só para o capitão, apesar de suas conversas e bons tratos, todos estavam muito calados e tristes.

Eu já estava no meu local, a janela aberta, matando todas as saudades dos meus amigos.

─ Olha, o nosso barquinho, nosso grande amigo, o “Pequeno Guardian”!

─ Olá, ferramentas!  Que bom estar com vocês novamente! E começava a falar. Contava de Bora-Bora, de Moorea e o tamure. Ninguém dizia nada, quando a porta se abriu e entraram Phill, Darling e Dona Rebeca. Esta se esquecendo que ninguém havia antes falado com Lady Darling, foi logo dizendo:

─ Bem amigos, nosso capitão e Lady Darling de volta, conosco!

Ninguém dissera nada. Todos ficaram espantados.

Lady Darling achou aquilo muito natural, quando então me viu, do outro lado da janela e veio na minha direção, e baixinho me perguntou, pensando que Dona Rebeca nada soubesse.

─ E aí que você fica “Pequeno Guardian”?

─ É, Darling, daqui de cima vejo tudo!

Dona Rebeca que não era boba percebeu logo que Darling falava comigo.

E o martelo não resistiu:

─ Ué, o “Pequeno Guardian” fala com Darling, nós vamos falar também!

Phill não dissera nada, estava curioso para saber como as coisas aconteceriam e Darling, branca, assustada e muito mais que tudo surpresa, disse para o martelo:

─ Você fala também, martelo? No que ele rindo respondeu:

─ Eu só não! Todos nesta oficina também! E completou:

─ Vamos lá pessoal, todos dar nossas boas-vindas a Darling!

E toda oficina falou:

─ Bom dia, Darling!

Darling estava paralisada, branca como um papel, rapidamente se recompôs e foi falando com todos, lógico começando pelo martelo:

─ Bom dia martelo e o pegou nas mãos. E com ele na mão ia falando com todos, feliz da vida. Descobrira um novo mundo, o nosso mundo secreto, o mundo secreto de seu Phill.

─ Bom dia grande serrote!

─ Olá, dona bancada!

─ Como vai seu torno?

─ E você, linda lamparina!

Que bom conhecê-lo formão!

Ia falando com todos, e o martelo calado na sua mão, Phill e Dona Rebeca maravilhados. Ela já se tornara agora íntima da oficina. Todos falavam com ela, até que Darling colocou o martelo no seu local, dizendo:

─ Nunca vou me esquecer, martelinho, você foi o primeiro a falar comigo!

O martelo não dizia nada, estava mudo.

E o grande serrote comentou:

─ Lá está novamente com aquela crise de bobeira, igual ao dia da visita da rainha!

E todos riram e contaram tudo para Darling, até ele esperando ser nomeado Sir Martelo.

Darling pegou o martelo novamente e carinhosamente o beijou, dizendo:

─ Fala martelinho! Fala Sir Martelo!

─ Fa, fa, fafa, lo, sim! ─ disse todo nervoso e encabulado!

Aí é que foi a maior farra, todos riam como nunca, com o martelo gaguejado, e Dona Rebeca dizia:

─ Por trás desta robustez toda de seu aço, o martelo é um grande sentimental!

Phill, pegando a mão de Darling, saíra mostrando realmente toda oficina, abrindo gavetas, seus desenhos, os modelos que faltavam terminar e os que ainda faria e, parando em frente aos retratos de sua mamãe e do vovô, disse:

Aí estão, minha querida, os responsáveis por tudo!

Justo quando acabara de dizer isto, umas flores de jasmim, que Dona Rebeca colocava todo dia, caíram estranhamento sobre a mesa. Phill apanhou-as e colocou atrás de sua orelha fazendo o mesmo com Darling, que como Dona Rebeca, olhavam assustadas para as fotos. Porém, naquela oficina nada mais para elas poderia ser espantoso, ou mesmo inacreditável.

Phill virando-se para sua eficiente amiga e secretária disse:

─ Dona Rebeca, a partir de amanhã, teremos muito trabalho. Iremos construir o veleiro, sonho de Mestre Estêvão e nele daremos a volta ao mundo!

Toda a oficina ficou surpresa, mas feliz, iriam de novo trabalhar nas mãos de Mestre Phill.

E falei alto para todos:

─ Iremos construir o “Windsong”.

E todas as ferramentas gritaram:

─ Hurra! Hurra! Hurra ao “Windsong”.