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A rainha continuava, detalhadamente, admirando tudo, alisando a bancada de pinho de riga comentou: ─ Belíssima madeira é o pinho de riga. Seria capaz de nos contar histórias de séculos, se pudesse falar. ─ É verdade, Vossa Majestade, disse Phill, piscando discretamente o olho para a bancada, que muito o ajudava quando fazia seus modelos, ensinando detalhes desconhecidos de muitos, e estes eram os grandes sucessos dos modelos feitos por Phill. A bancada, distraidamente, disse: ─ Se a rainha soubesse, hein Phill? Imediatamente a rainha virou-se e perguntou ao príncipe: ─ Phillip, disse algo? ─ Não minha rainha, porém me pareceu ouvir uma voz também! Todos nós ficamos paralisados. A rainha não era boba, sabia das coisas e percebeu tudo. Phill não dissera nada, mantinha-se calado, com a mão direita alisando a bancada, que se sentia realizada. Ela, a mais velha de todos, conhecia muito toda a história da Inglaterra e agora estava junto à rainha, se lembrando de quantas madeiras iguais a ela haviam sido utilizadas na grande armada inglesa. Como dissera, à rainha, a bancada sabia de muitas históricas seculares! Ao chegar ao formão curvo, com o cabo trabalhado, a rainha se deteve e, suavemente alisou os entalhes de seu cabo, dizendo: ─ Belíssimo trabalho de Mestre Estevão, como vocês devem gostar destas ferramentas! A rainha já tinha certeza que aquele local encerrava algo mais que uma oficina. O maior destaque ocorreu, quando sua alteza, viu o belíssimo faqueiro, presente de Natal do vovô, para sua Margarida. ─ Sir Phill, já vi coisas belíssimas como rainha, todavia confesso nunca admiramos algo tão belo e sublime como este maravilhoso faqueiro, uma obra de rara e inigualável beleza! Lady Darling ficara maravilhada, hipnotizada com a caixa, as peças, os detalhes, os entalhes, tudo. ─ Phill, esta é a mais linda peça que já vi! Margarida de imediato completou: ─ Será meu presente de casamento para vocês, Lady Darling! Exclamação geral! Oh! Até a rainha... Darling, novamente, se abraçara longamente com a Margarida, colocando um doce beijo em sua testa, tal qual Phill sempre fizera e Margarida pensava, como em tanto ela é igual a meu Phill.
A rainha vira o primeiro trabalho de Phill maravilhada, o velho “Marreco”, que fora fotografia de diversas revistas na Europa, quando dos artigos sobre o Capitão Phill, o maior herói vivo da guerra do Pacífico. Via também agora a foto da lancha PT, “Vovô”, com Phill, o capitão e sua tripulação de polinésios e, não resistindo, perguntou: ─ Sir Phill, esta sua foto mostra uma pequena bandagem no local onde o senhor tem essa cicatriz, abaixo do queixo, poderia vossa rainha ter conhecimento do ocorrido? ─ Sim, Majestade. Foi quando estávamos terminando esta missão, que uma rajada de metralhadora, vinda de terra, quebrou o vidro da cabine, que V.M. vê na foto; uma destas lascas de vidro me atingiu abaixo do queixo, o que foi muita sorte, pois um pouco mais abaixo teria cortado meu pescoço e hoje não estaria aqui recepcionando V.Alteza! Agora sabíamos da história da cicatriz. O Phill não gostava de falar nada sobre a guerra, mas com a pergunta curiosa da rainha ele respondera. A visita à oficina terminara e todos se encaminharam ao refeitório onde se encontrava um excelente buffet, onde todos saciaram a sede com deliciosos sucos das frutas locais, ao tempo em que se amenizavam do forte calor tropical. A rainha com um movimento discreto de cabeça chamou seu ajudante de ordens e se dirigiu a Phill. ─ Sir Phill, o Major Robert passará às suas mãos, cópia das providências, bem como as datas para o senhor e Lady Darling escolherem, dentro da agenda real. A lista de seus convidados gostaria que fosse anexada também, para elaboração e distribuição dos convites. ─ Vossa Majestade terá todas as informações amanhã, nesta mesma hora com Dona Rebeca! ─ Ótimo, assim ficamos acertados. A visita oficial da rainha ao estaleiro fora um sucesso, tudo devidamente fotografado e documentado e transcorrera numa exatidão de Jardim Botânico. Phill estava feliz. Tudo ocorrera como planejado. A comitiva real se despedira, ficando Lady Darling que iría almoçar com Phill, Margarida e Dona Rebeca na casinha do vovô, quando acertariam tudo para o casamento. E no dia seguinte, seria entregue ao emissário real, como acertado. A oficina era um parlamento. Todos falavam ao mesmo tempo, era um entrecortado de vozes e o martelo continuava mudo, não dizia palavra, parecia hipnotizado, até que o grande serrote deu dois fortes berros: ─ Acorda seu martelo! Acorda seu martelo! ─ Hã, o quê? O que vocês tão falando? Hã! Aí é que se deu conta, voltou à realidade. ─ A rainha me pegou! A rainha me usou! Vocês viram, cadê ela? Vocês viram? Agora sou martelo real! E daí não parou de falar mais; ele e o formão também! E a bancada foi logo dizendo: ─ É mas quem falou com a rainha fui eu! E todos se admiravam da bancada de pinho de riga. É verdade! ─ dizia a lamparina, que ficara muito quieta no seu canto. ─ Todos nós tivemos hoje nosso dia de sorte. A rainha demorou mais tempo conosco que em todo estaleiro, tudo por causa do vovô! Foi nesse exato momento que o retrato do vovô, ligeiramente se mexeu, caindo algumas flores de jasmim no chão. Todos se entreolharam assustadíssimos e, em uma só voz, disseram: ─ Hurra! Hurra! Hurra ao vovô! Ele também foi cumprimento pela rainha! ─ O vovô também veio do céu para estar presente à visita da rainha, como entender isso? ─ dizia o formão! ─ Ora, fácil! ─ dizia o grande serrote. Se nós podemos falar, por que logo o vovô, que nos ensinou tudo, não poderia nos visitar? E mais uma vez o retrato deu aquela mexidinha! ─ Viva o vovô! Viva o vovô! Viva o vovô! Agora todos nós tínhamos certeza: o vovô, sempre que podia, descia do céu e estava conosco, na sua velha oficina, com seus amigos e comigo, seu último barquinho que construíra. Phill, Darling, Margarida e Dona Rebeca, na casinha do vovô, conversavam, onde Darling era toda satisfação, alegria e surpresa com as peças que via e as histórias contadas por Margarida. Dona Rebeca também ficara conhecendo algumas. Phill mostrara à Darling, o jardim, a varanda em frente ao mar e o velho mercado onde trabalhara, que continuava o mesmo que, apesar da concorrência dos grandes supermercados, agora na ilha, não perdera sua clientela. Tudo era relatado à Darling, que ia conhecendo a vida de Phill, e como se tornara um vencedor, sempre pela humildade, atenção, persistência e seu valor reconhecido de sempre respeitar seu semelhante, as pessoas mais velhas, atributos sempre destacados em seu caráter. Segundo a agenda da rainha, havia um dia livre daí a uma semana, o que Darling consultada, concordou plenamente. Dona Rebeca achou que seria pouco tempo. Contudo, Margarida acertou com ela que ajudaria em tudo e Phill colocaria alguns assistentes do estaleiro para ajudarem também. Pela manhã do dia seguinte, Dona Rebeca já tinha tudo pronto para entregar ao emissário real, e separara uma cópia para Phill, Darling e Margarida. ─ Bom dia a todos! ─ dizia Dona Rebeca, a nós na oficina. ─ Bom dia Dona Rebeca, por que tão alegre? ─ perguntou o martelo. ─ Vou ler para vocês as providências para o casamento do nosso Phill! ─ Xi! ─ disse a velha bancada. Agora já é nosso Phill! O martelo logo comentou: ─ Dona Rebeca quebrou o rígido protocolo! E todo mundo ria como nunca, e eu acrescentava: ─ Lógico, e muito natural, Dona Rebeca é nossa boa amiga, já almoçou na casa do vovô, que sempre dizia: entre amigos não há títulos! ─ É verdade, Rebequinha! ─ dizia a bancada, corrigindo o comentário, e todos não se agüentavam de tanto rir! Dona Rebeca começou a ler para nós as providências para a realização das bodas no Britânia e todos ficamos calados, em pleno silêncio. ─ O dia será daqui a uma semana. Os padrinhos da noiva, o casal real. A madrinha do noivo, Margarida e o padrinho o vice-governador da ilha, Almirante Smith. Os convidados serão os hóspedes do Britânia, o governador geral das ilhas, etc. e do estaleiro: eu, Dr. Larry e Dra. Karen. Tudo relativo aos buffet, doces, etc., será providenciado pelo Britânia. A viagem de núpcias será um cruzeiro pelas Ilhas da Polinésia Francesa: Bora-Bora, Moorea, Tahiti e Tetiaroa. A rainha e seus hóspedes, após as bodas, retornariam para Londres, via Austrália, ficando o iate real à disposição dos noivos. Nestes dias Phill não tirava da cabeça a idéia que o conde dera, construir seu próprio veleiro para fazer uma viagem de circunavegação. Aquilo era uma coisa fantástica. Ia preparando todas as suas coisas para levar ao Britânia. Mas, aquela idéia não lhe saía da cabeça. Compras das alianças, últimas providências junto à Dona Rebeca, contudo precisava de alguns livros de veleiros clássicos de Mestre Estevão, até que encontrou alguma coisa e colocou na bagagem. Durante o cruzeiros de lua de mel, com Darling, dariam juntos uma boa olhada nos livros. Margarida estava curiosa, o que Phill tanto procurava nos livros e desenhos do vovô, entretanto não comentara com ele, mas conhecendo-o bem, já percebera estar procurando desenhos do vovô, e se lembrou do livro secreto de Mestre Estevão, que nem Phill o conhecia. A semana passara rápido, justo por estarem todos muito ocupados e o dia do casamento chegara. A solenidade ocorreria às 10:00 da manhã no terceiro convés, do Britânia, na área descoberta. As potentes lanchas do iate real, iam e vinham constantemente do porto, coisas e mais coisas sendo levadas e trazidas, as malas dos hóspedes reais e coisas para as bodas, com as malas de Phill, tudo anotado e discriminado. Além de devidamente etiquetado, pelo oficial intendente, um escocês com aquelas saínhas curtas, que todos achavam meio esquisito, para homem usar. No meio da saia, na frente, uma bolsinha. Não fora o escocês forte como um touro e grande como um gigante, iría ouvir algumas piadinhas dos ilhéus, que olhavam muito, mas riam escondidos, sem dizer palavra. Tudo pronto. Às 9:30 h, a grande lancha, número um do Britânia, começara a levar os convidados do cais para o iate real. Margarida, Dona Rebeca, Dr. Larry e Dra. Karen, o vice-governador da ilha, Almirante Smith, muito amigo de Phill e seu padrinho de casamento, que o deixara muito satisfeito e o próprio Phill. É lógico eu, que ia rebocado, com mastro, retrancas, velas e remos tudo arrumado dentro de mim. O “Pequeno Guardian”, a pedido de Phill, iría no Britânia para quando nas ilhas da Polinésia Francesa dar uma velejada com o casal. Meu local acabara sendo junto aos barcos salva-vidas, junto ao terceiro convés, de onde assistiria a toda a cerimônia. O engraçado era o tal marujo, que tinha me ouvido falar, quando me via ficava muito tempo me olhando. Eu não dizia nada e achava a maior graça, com a cara de assustado que ele me olhava. O pessoal do mar sempre é muito supersticioso. Começaram a chegar mais convidados, que iam se dirigindo para o terceiro convés e sempre aqueles apitinhos que não paravam de soar. Achava aquilo muito divertido. Um padre anglicano, religião da Inglaterra e da grande maioria dos presentes, já se encontrava todo paramentado, aguardando o Papa da Igreja Anglicana, no momento Papisa, a rainha da Inglaterra, pois o soberano inglês é o Papa da Igreja Anglicana. Anunciada pelo arauto com a grande bengala grande: toque! Toque! Toque! ─ A Rainha da Inglaterra, S. M. Real Elizabeth II, o Príncipe Philip, Duque de Edimburgo.
A rainha com um longo manto vermelho, uma gola branca de pele, com pontinhos pretos e uma grande coroa, com uma cruz no topo, sentou numa grande cadeira azul, cheia de dourados e fundo branco. Tinha na mão uma bengalinha pequena com uma bolinha azul na ponta e uma cruz em cima da bolinha, em ouro. O Duque, com o uniforme de gala da Real Armada Inglesa, dizia ser ele alto oficial de Marinha, e tinha mais medalhas que todos. Só o meu Phill, é que tinha tantas medalhas quanto ele, um pouquinho menos, reparei depois. Ao sentar na grande cadeira, tiraram o longo manto da rainha e o colocaram atrás da cadeirona todo aberto. E a coroa ficava numa armação própria sobre sua cabeça. Eu já estava preocupado. Coitada da rainha, com aquela coroa pesada na cabeça e aquele manto grosso no calor que fazia, ia passar mal. Phill, com seu belo uniforme branco, e agora com o colar de Sir, era ladeado por vários oficiais com uniformes iguais a ele, comandados pelo capitão do Britânia. Ao seu lado Lady Darling, linda, com um vestido longo, azul claro, um chapéu da mesma cor de abas longas com uma telinha cobrindo seu rosto e seus belos cabelos vermelhos. Estava maravilhosa, divina! Atrás deles estavam Margarida de braço dado com Almirante Smith. A rainha fez um movimento com a bengalinha e o padre iniciou o casamento do Phill com Darling. Ele falava rápido e baixinho, numa língua esquisita, eu não entendia nada. Pegou as mãos dos noivos, a direita de cada um e colocou em cima de um guardanapo comprido, roxo e dourado, que ficava pendurado de cada lado de sua longa roupa branca, e dava a volta no seu pescoço. Disse novamente as palavras na língua esquisita, e pediu a Phill que colocasse as alianças sobre um travesseirinho azul. Ele fez uns sinais com a mão e pediu a Lady Darling que colocasse a aliança no dedo de Phill, e dizendo a mesma coisa para que Phill colocasse a aliança no dedo de Darling. Aí, então, falou em voz alta, e para que todos entendessem, não na língua esquisita: ─ Eu vos declaro marido e mulher! ─ Êpa! Agora o Phill estava casado com Darling, uau!!! Logo, de imediato, todos os oficiais de uniforme branco fizeram um longo corredor, da rainha até metade do convés, uns quinze de cada lado, foram tirando suas espadas e fizeram uma espécie de túnel, cruzando as espadas bem alto. Ajoelhados aos pés da rainha que se levantou e disse, tocando com a bengalinha em suas cabeças: ─ A rainha da Inglaterra vos abençoa! Eles se levantaram. Phill levantou a telinha que cobria o belo rosto de Darling e, carinhosamente, a beijou. Começaram a passar por baixo do túnel de espadas, que batiam umas nas outras fazendo um barulho metálico. Reflexos do sol espraiavam-se por todos os lados, uma coisa muito bonita, inesquecível, pois salpicavam de pontinhos dourados todos os presentes. Neste exato momento, todos os apitinhos do Britânia começaram a soar e sua grande chaminé também dava quatro longos apitos: Piúúúú! Piúúúú! Piúúúú! Piúúúú! E todos gritavam com alegria: ─ Viva os noivos! Viva os noivos! Viva os noivos! Phill e Darling voltavam, agora, para perto da rainha, que ficara com o príncipe ao lado de Lady Darling. Margarida e o Almirante Smith ao lado de Phill. Então vieram todos cumprimentar os noivos. O conde, todo sorridente, era a própria alegria. A condessa que fora esperta desta vez, não se pintara e não estava toda manchada, mas seu nariz estava muito vermelho; ela rindo, mas sempre com o lencinho no nariz. Margarida ria muito, abraçando o Phill, mas com o lencinho no nariz; até Dona Rebeca, na hora de falar com o Phill e Darling, também estava com o lencinho no nariz. Estranhei muito. Todas resfriadas ao mesmo tempo, que coisa estranha. As únicas que não tinham se resfriado foram Lady Darling e a rainha. Coisa esquisita, pensei. Todos estavam muito alegres. Phill e Darling riam muito, para todos que se chegavam a eles. Dr. Larry, Dra. Karen ficaram muito tempo abraçados. Dr. Larry dissera alguma coisa gozada no ouvido de Phill que ele se ria a valer. Acabados os cumprimentos, Darling veio na minha direção, com Phill, para pose do casamento, ambos se apoiando em mim, e as máquinas fotográficas funcionando: clic! clic! clic! clic! clic! Uma porção delas. Os jornais de todo mundo iriam ter fotos do casamento do ano! É lógico que eu iría aparecer também! Ela se virando para mim, pegou o raminho de flores que tinha nas mãos, e o colocou no buraco do meu mastro, e alisando meu verniz me deu um longo beijo dizendo: ─ Obrigado, meu “Pequeno Guardian”, por ter protegido sempre nosso querido Phill! Margarida havia contado para ela por que vovô colocara este nome. E todo encabulado, fiquei algum tempo calado sem poder falar, até que disse: ─ É o meu maior prazer Darling e farei isto com você também, sempre a protegerei! Ela me olhou séria, com aqueles lindos olhos verdes transparentes bem abertos e espantada. Foi ficando branca e Phill a segurou apoiando-a. Ele colocou o dedo indicador sobre seus lábios, como pedindo segredo, e disse: ─ É Darling, o “Pequeno Guardian”, também fala! Ninguém entendia porque Lady Darling que estava tão alegre, feliz e rindo muito, de repente, ficara tão pálida, branca: só podia ser o forte calor tropical, aliado à grande emoção. A condessa logo correu para ver o que se passava; o conde, então, veio como um raio, Dra. Karen, Dona Rebeca, a rainha, todos formavam ao redor dela um grande grupo preocupado. A condessa foi a primeira a perguntar: ─ Você está bem Darling, o que houve? Dra. Karen, como médica, pegava no pulso de Darling, dizendo: ─ Um pouco acelerado, mas tudo bem, Capitão Phill! A rainha, se esquecendo dos protocolos, perguntando: ─ Você está bem, minha querida Lady Darling? No que ela se refazendo respondeu, rindo, rindo muito e me alisando o tempo todo. ─ Estou ótima e maravilhosa! E todos ficaram felizes, e riam muito porque Lady Darling voltara a sua normalidade. Ao longe, aquele marujo, que me olhava sempre de maneira estranha, falou com seu companheiro: ─ Aquele barquinho fala, falou novamente, eu sei, eu vi! Falou agora com Lady Darling e quase a matou de susto. Eu vi, eu vi! E a resposta do companheiro veio rápida. ─ Fica calado, senão o tenente te manda pra baixo novamente, por causa desta sua mania de beber em serviço, e, logo agora, que vão começar a servir os doces, que sempre sobra pra gente! Todos começaram a descer para o segundo convés, pois o sol já estava fortíssimo e as peles brancas dos ingleses não estavam como nós, das ilhas, acostumadas aquele sol e temperatura. No grande salão real do Britânia, uma vasta mesa, com belíssimo buffet e doces de todos os tipos, belamente arranjados em lindas bandejas de prata. Taças de cristal e garçons servindo champanhe geladérrima, a todos e tudo aquilo que uma festa de casamento. Agora imaginem no iate real: cascata de camarões, caviar, cascata de lagostas, scargot, canapés variadíssimos, etc, etc, etc. De repente, aquele som gostoso de nossas ilhas, que sempre ouvia muito da casa do vovô, que dizia ser a dança do Tamure, típica da Polinésia. Belíssimas moças, jovens locais com saias de folha de coqueiros e ráfias, uma pulseira em cada pulso, feita de conchas, com um lindo chapéu alto na cabeça, começaram a se movimentar todas igualzinhas, se mexendo muito, e todos os convidados admirados, até a rainha. Pareceu-me que os homens é que estavam gostando mais. Não entendi bem porquê, acho que é porque as moças não estavam vestidas pra cima da cintura, só podia ser isto! E os tambores tocando: tum! tum tum! tum tum tum tum! Todos ficaram hipnotizados. As moças eram lindas, queimadas do sol das nossas ilhas, ficavam bem morenas e faziam movimentos suaves e lindos com as mãos.
E aquela música, sempre mexia muito comigo: tum! tum tum! tum tum tum tum! A dança do Tamure demorou muito, quase uma hora sua apresentação e todos queriam mais, pelo que pude notar. As dançarinas é que estavam muito cansadas, suavam muito e seus corpos belos estavam todo molhados de suor. Palmas, muitas palmas, todos aplaudiam a valer e as jovens polinésias foram se retirando, porém antes de saírem, colocaram em Lady Darling e Sir Phill maravilhosos colares de flores trançadas, que lhe caíram muito bem. Era o hábito das ilhas, sempre colocar flores em todos, quando chegavam, em festas, em visitas às outras casas, em pessoas importantes. Só mudava quando alguém partia; aí os colares eram de conchinhas lindas, também belissimamente trançadas e encaixadas, e arrumadas umas nas outras formando desenhos inacreditavelmente belos. Os colares eram de conchas para durarem sempre, e quanto mais colares uma pessoa ganhava, mais saudades iriam sentir dela. Hábitos e tradições que todos os que moravam nas ilhas conservavam e nunca foram afetados, apesar das mudanças e modernização ocorridas nas ilhas. Às 3 horas da tarde, a rainha se retirou com o duque, e todos começaram a se despedir. Foi quando notei, numa grande parte ampla do salão, agora mais vazio, um montão de embrulhos, com papéis de presente, lindos. Engraçado, igual na sala da casa do vovô no Natal. Só que não vi árvore de Natal! ─ Xi! Pensei, esqueceram de fazer a árvore, acho que não deu tempo! Depois é que comecei a ver que não tinha nenhum enfeite de Natal, bolinhas, fiozinhos dourados, velas vermelhas. ─ Acho que casamento não é igual ao Natal! Mas os presentes, como explicar isto? Depois de muito tempo, é que Darling me explicou que os presentes eram dos convidados, de gente que não pôde vir à festa, e que a época da árvore era só no fim do ano. Eu não estava muito errado pois já estávamos chegando ao fim do ano. Em breve, mais umas quatro luas grandes, seria a época daqueles ventos fortes, que tiravam telhado das casas, derrubavam coqueiros, e onde na floresta muitas árvores caíam. Lembro-me, de uma vez no tempo do vovô, que um vento forte destes fez muito estrago, o mar cresceu tanto que quase cobriu toda nossa praínha e todo mundo ficou com muito medo. Vovô sempre tinha uns arames trançados segurando os telhados da casinha e da oficina, o que evitava que saíssem voando. A festa de casamento do meu Phill chegara ao fim. Todos já se haviam retirado. Os hóspedes reais, como o casal real, iriam para o Palace. No dia seguinte, dois grandes aviões, que pousavam nas águas, os levariam para a Austrália, uma ilha mais ao Sul que Phill visitara durante a guerra, e dizia que era muito, mas muito grande mesmo, e cheia de bichos esquisitos, tinha até um que levava o filhote num saco na barriga. Eu achava aquela história muito gozada. Lógico que não acreditava, devia ser história para criança dormir, mas depois me lembrei, que também se dizia que coisas não falavam. Aí, achei melhor aceitar a história dos bichos esquisitos da Austrália. Minha preocupação agora era com o pessoal da oficina, como contar a eles toda a festa do casamento do nosso Phill? O vestido comprido da rainha, a bengalinha dourada, a coroa, a grande cadeira vermelha, o padre que não tirava o guardanapo do pescoço, o túnel de espadas cruzadas que Phill e Darling passaram por baixo, o beijo que ganhei de Darling e ela quase desmaiou de susto quando falei com ela. O buffet e todos os doces, como é que o pessoal da oficina iría ficar sabendo de tudo? Foi quando me lembrei de Dona Rebeca e como ela gostava de falar muito com as ferramentas, limpando e azeitando, ela o faria, contaria tudo, tudinho! Soube depois que ela passou a noite inteira toda no escritório, sem dormir, contando tudo para as ferramentas e, no dia seguinte, todos, no estaleiro, comentaram: ─ Coitada da Dona Rebeca está com muitas saudades do capitão, ficou a noite toda no escritório e no Museu. Coitada dela! O comentário foi tanto que Dr. Larry pediu à Dra. Karen para dar uma olhada nela, que depois de fazê-lo, ao voltar, tranqüilizou a todos. ─ Vocês estão é pensando coisa ruim, Dona Rebeca está ótima, só um pouco cansada do casamento e só! ─ E por que ela falou a noite toda no escritório como os vigias disseram? ─ Larry, você sabe como Dona Rebeca é, gosta de tudo arrumado, em ordem, e só uma semana para o casamento, e ela atarefada, você queria o quê? Quando voltou, passou toda a noite colocando as coisas em ordem! E todos acreditaram no que a Dra. Karen falara. Era meia verdade, pois enquanto arrumava as coisas, contava a festa de casamento todinha, para nossos amigos no Museu. ─ Me contaram depois, quando voltei, que o martelo logo quando ela chegou foi de imediato perguntando: ─ Dona Rebeca, qual foi o recado da rainha pra mim, quando é que vou ser Sir Martelo? E todo mundo ria a valer, e o grande serrote dizia: ─ Este seu martelo, não tem jeito mesmo! Onde é que se viu “Sir Martelo”, só mesmo na cabeça dura dele! Phill e Darling começaram a abrir os presentes do casamento, Phill ia abrindo e Darling com uma caneta, muito bonita, toda dourada, e um belo caderno de capa de couro, ia anotando o nome de quem tinha oferecido o presente e o que era. Ela fazia um biquinho lindo quando escrevia! Para surpresa deles, tudo que abriam, era para uso num grande veleiro, de cruzeiro, coisa que Darling não entendeu nada. E Phill logo disse: ─ Isto tem o dedo do conde, seu pai é rápido também! O que levou Darling a dizer: ─ Papai e suas esquisitices, sempre o mesmo! Darling ainda nem percebera o que Phill tinha em mente, e ele ficou maravilhado e mais uma vez falou sobre o conde: ─ Darling, seu pai é um sujeito notável, ele sabe perfeitamente como fazer as coisas! ─ É Phill, disso sempre soube e muito! ─ disse sorrindo. E os presentes iam sendo abertos: um sextante Zeiss, alemão, Almirante Smith; uma bússola com compensadores, governador geral das ilhas; moitões de bronze, duque tal; lamparinas de navegação, marques tal; E as coisas, todas náuticas, manilhas, relógios de antepara, cornetas, sinaleiras, enfim tudo para um grande veleiro, Phill deparou com um pequeno embrulho e conhecia aquele papel. ─ Este é da Margarida! Darling perguntou, achando estranho. ─ Mas Phill, ela já não nos havia dado o faqueiro, agora outro presente? ─ É também estou achando estranho, vamos ver o que será! Abrindo, rápido, o embrulho, ambos curiosos, encontraram um belo livro e um envelope lacrado com o timbre de Mestre Estevão. Não se contendo de curiosidade, Phill de imediato começou rompendo o lacre e iniciou a leitura do pequeno bilhete que tinha dentro com a letra de Margarida. Ele resolvera ler para si, e depois passaria o bilhete para Darling. Querido Phill, Já tenho uma idéia dos projetos que você tem em mente, pois o vi procurando algo nos desenhos e livros de veleiros do papai, seu vovô. Assim, lhe dou como presente de casamento, também, além do faqueiro, este livro, o livro secreto de Mestre Estevão, com detalhes dos melhores veleiros de madeira, os mais clássicos. Nele, tenho certeza, você encontrará o que deseja para realizar seus sonhos. Este livro só foi consultado e folheado por papai e você, como sempre, será o segundo a fazê-lo, o meu bom Mestre Phill, como dizia vovô! Com muitas felicidades na sua nova vida Margarida. Phill ficara um pouco calado e pequenas gotas d’água rolaram pelo canto de seus olhos e ele se lembrando do vovô, até no dia de seu casamento. O destino colocara em suas mãos novamente a experiência de Mestre Estevão, do querido e saudoso vovô. Darling, esperando para ler o bilhete, notou Phill ter-se emocionado e calando-se, virando-se e olhando para mim, deu uma leve e sutil piscada de olho, eu já entendera tudo. Eu dei uma balançada em resposta, justo na hora que aquele marujo olhou para mim, e não tendo ninguém por perto, veio direto na minha direção, e disse: ─ Sei que você fala! Fala comigo uma vezinha, fala! ─ Tá bom! ─ disse-lhe, mas você não pode sair gritando por aí, será só entre nós, combinado? ─ Tu...tu...tu...do be..em! Não fa..falo, na..da..da com ninguém! E ficou paralisado, branco, me olhando muito tempo. Foi quando falei novamente: ─ Você é muito gozado, sabia? Pede para falar e depois fica calado, branco como papel, me olhando! Ele foi voltando à cor natural, e começou a rir, muito, mas baixinho, para ninguém ouvir. Aquele livro, que Phill recebera de Margarida, para mim não era nenhuma novidade, quando vovô me construiu, vez por outra o consultava, só que ainda não sabia que só o vovô mexia nele, seu livro secreto que agora era do Phill. Enquanto Darling lia o bilhete de Margarida, Phill folheava o livro e encontrou uma pequena folha de amendoeira, toda seca, grudada num pedaço de papel marcando uma página. No papel, já amarelado pelo tempo, estava escrito com a letra do vovô, com aquele lápis 4B, pretão, que ele sempre usava em tudo: este é o melhor veleiro clássico do mundo, se tivesse que fazer um para mim,, para rodar o mundo, seria este, um catch, de 65 pés, e seu nome seria “Windsong”. Phill deixou o livro apoiado sobre a poltrona, em que estava sentado, pegou Darling pela cintura, levantando-a do chão, e saiu em corrupios pelo grande salão, gritando alto, bem alto: ─ Achei! Achei! Achei o nosso sonho, o nosso futuro! Achei! Achei! O vovô me deu o recado! E ria a plenas gargalhadas, como há muito não via meu Phill fazer. Ele era todo felicidade, todo alegria, todo satisfação. O que levou Darling, também rindo, mas curiosa a perguntar: ─ Phill, o que é que você achou no livro de Margarida que o deixou tão feliz, me conta? Phill, colocando-a no chão, disse-lhe: ─ Darling, no dia do jantar neste salão real, seu pai me deu uma idéia formidável: construir meu próprio veleiro e fazer uma viagem de circunavegação, um cruzeiro à vela pelo mundo. Comecei a pensar seriamente nisso. O livro que Margarida nos deu de presente, era o livro secreto de Mestre Estevão, só ele o conhecia e ao folheá-lo, encontrei a observação do vovô e contou-lhe tudo. ─ Phill, este sempre foi o maior sonho de minha vida desde pequena, quando no lago de nossa mansão em Westerfield, brincava com barquinho. Por isto me apaixonei por você, ao vê-lo chegar perto do Britânia no “Pequeno Guardian”. Ao saber que você, além de todos os lances de herói é um grande mestre, arquiteto naval, vi que você era o homem com quem deveria me casar. Papai, que não tem nada de bobo, sentiu tudo, sutilmente preparou o terreno para o seu e o meu futuro. Este foi o melhor presente de toda a minha vida, realizar meu sonho de sempre. Phill abraçou-a e se beijaram, longa e apaixonadamente. Ele também tinha achado a mulher ideal para companheira de sua vida. Abraçados retornaram para terminar a abertura dos presentes, faltando agora o da rainha da Inglaterra. Num belíssimo envelope creme claro, com as armas heráldicas da coroa inglesa e suas insígnias, estava escrito em letra gótica, bem característica da realeza, caligrafado pelo letrista real: Para Sir Philson e Lady Darling Sorensen O envelope estava lacrado com o sinete real. Phill com seu canivete suíço, sem ferir o lacre, descolou-o de uma parte do belo papel e tirando de dentro duas belas folhas apergaminhadas com as insígnias da rainha, começou a leitura. Prezados amigos Sir Phill e Darling Quis o destino, que nesta ilha longe de nosso reino, numa pequena colônia inglesa, encontrasse uma das mais belas páginas de minha vida como monarca, assistindo e apadrinhando o casamento de tão honrados súditos. Minha dúvida era profunda. Qual seria o melhor presente a ofertar-vos? Deveria ser algo para todas vossas vidas. Consultando nosso bom amigo Conde de Westerfield, ele simplesmente me colocou: ─ Vossa Majestade ofereça ao casal, madeira para construção de um belo veleiro! Assim, segue anexo uma carta de crédito, por vossa rainha timbrada e com o visto do intendente real, que vos autoriza a adquirir, em nome da Coroa Inglesa, toda a madeira de qualquer espécie, em qualquer mercado do mundo, o que necessitar para a construção de vosso veleiro.
Sejam felizes e jamais esqueçam de vossa rainha. Assinado, com o belo anel real, timbrado. S.M. Rainha Elizabeth II A folha anexa era a carta de crédito com a chancela do Intendente Real da Coroa Inglesa. Phill e Darling riram, se entreolhando e disseram as mesmas palavras ao mesmo tempo: ─ A nossa rainha é uma grande amiga! Eram quase 18 horas, quando acabaram o alegre mas cansativo trabalho de abrir e catalogar todos os presentes, para os agradecimentos futuros. Foi quando o Capitão do Britânia chegando ao salão se dirigiu ao casal: ─ Sir Phill, Lady Darling! Suas acomodações já estão prontas e tudo em ordem, por ordem de S.M. a rainha, os noivos ocuparão a suíte real, caso inédito na história do Britânia e para nós da tripulação uma grande honra! O jantar será servido na ante-sala da suíte, às 20:30. ─ Gostaria que o senhor e Lady Darling recebessem esta modéstia lembrança da tripulação do iate real Britânia. E passava as mãos de Phill em belo embrulho, coberto com um papel acetinado azul, com as insígnias do Britânia em dourado. Phill de imediato abriu o embrulho, e dentro uma ela bela bolsa dura de couro, e viu tratar-se de um potente binóculo naval, com bússola acoplada ao seu visor, notando ter uma pequena placa dourada com inscrições gravadas que diziam: A Sir Philson e Lady Darling, como lembrança de seu casamento a bordo do Iate Real Britânia.
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