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Darling, pude notar bem, era uma mulher forte, suave, doce e amável, mas decidida, por trás da fleuma britânica, uma mulher notável se encontrava.

Phill, o que estamos esperando? voltemos ao salão!

E meu Phill, atento, percebera a intenção de Darling.

Ao entrarem no salão, com o suave perfume das damas, permeado com os aromas dos diversos tipos de licores e dos puros havanas, Sir Phill segurando na mão de Darling, e não mais de braços dados, tomou a direção do pequeno círculo onde se encontrava o conde.

A rainha, esperta, e sobretudo atenta, percebeu Phill e Darling entrando no salão de mãos dadas e decididos a se dirigirem ao conde, e, de imediato, comentou com o príncipe, o Duque de Edimburgo: 

Phill, levantemos e nos dirijamos ao grupo onde está o Conde de Westerfield, pois Sir Phill e Lady Darling vão tomar uma importante decisão e quero estar perto, para ver como se comporta um homem sério. 

Foi exato o tempo do casal real se aproximar, e Phill se dirigiu ao conde, segurando a mão de Darling: 

Senhor Conde de Westerfield, com vossa licença, tenho a honra neste momento de pedir a mão de sua única filha, Lady Darling, em casamento! 

Sir Phill, o senhor é muito rápido! disse o conde.

Ao que Phill respondeu de imediato:

Senhor conde, aprendi que toda a vitória para ser completa deve ter acima de tudo movimentos rápidos e casados!

Então o senhor, Sir Phill, alcançou outra vitória!

E com seu jeitão simpático deu um forte abraço no meu Phill e um delicado beijo paterno na face rosada da filha. Estava aceito o pedido de Phill.

No exato momento em que todos se calavam com a chegada do casal real ao grupo, a rainha se dirigiu ao conde, já sabendo de antemão, qual seria a resposta a sua pergunta.

Meu nobre conde, poderia vossa rainha ter conhecimento do porquê da alegria estampada em sua face?

Certamente, majestade! Sir Phill acaba de me pedir a mão de Lady Darling em casamento, e qual o pai que não gostaria de ver sua filha casada com tal partido?

Gostaria de pedir um favor senhor conde, que vossa rainha anunciasse oficialmente a todos os presentes a boa nova.

Será uma grande honra para este fiel súdito, majestade! 

Eu me encontrava feliz, e sabia cada vez e mais, porque meu Phill era um vitorioso, um herói, o meu herói. O que pensariam as ferramentas com mais esta notícia e, certamente, seria desta vez eu o anunciante da “boa nova”, e não a rainha da terra. Êpa! Desculpem, a Rainha da Inglaterra.  

Tendo a seu lado o Príncipe Philip,  Sir Phill e Lady Darling, a rainha  se dirigiu ao centro do salão, quando o arauto rápido se aproximou e iniciou sua obrigação real: toque! Toque! Toque!

 

Todos, de imediato, se calaram ao ouvir o nobre som que avisava sua majestade, a rainha, faria um pronunciamento, e a rainha iniciou sua fala:

Senhores lordes e ladies, hóspedes e convidados do iate real, coube a vossa rainha dar a todos uma boa nova, como há muito tempo não o faço a meus fiéis súditos. É com grande prazer, que anuncio, para breve, o enlace matrimonial de Sir Philson Sorensen e Lady Darling de Westerfield!

E comentou como antes, com discreto sorriso para os prometidos:

A coroa inglesa oferece este iate real e sua tripulação para a realização das bodas e a viagem de núpcias!

Como de praxe, tradição antiga inglesa, todos os oficiais e lordes desembainharam suas espadas e deram um grande brado, único, ao som de umas espadas contra as outras:

                                      Viva a rainha!

                                      Viva Sir Philson!

                                      Viva Lady Darling!

Eu à minha maneira também dei um brado:

Hurra! Hurra! Hurra! Viva meu Phill!

E me esquecendo do marujo que estava ao meu lado, que me ouvindo, saiu como um louco, procurando o oficial do convés:

Senhor, senhor, o barquinho falou!

Marujo, se recolha a seu camarote, pois é proibido em dias de festa no Britânia, a tripulação beber.

Coitado do marujo, me esqueci totalmente dele.  

A Condessa de Westerfield, que não estava sabendo do ocorrido, pois se encontrava numa outra roda de ladies, foi pega totalmente de surpresa, quase desmaiando, e chorando, emocionada, acabou ficando com a cara toda esquisita, e saiu rápido para beijar sua filha, seu futuro genro, aquele homenzarrão que tinha feito o maior sucesso entre as damas, que comentavam:

Que belo casal, Lady Darling, linda, bonitona e Sir Phill também, estava escrito que se casariam!

O fotógrafo oficial não perdia nada, e as lâmpadas de sua máquina explodiam, ploc! ploc! ploc! E o jornal do dia seguinte, na ilha, seria notável, como acontecera com o término da guerra, quando o Capitão Phill retornaria à ilha como o maior herói do Pacífico.  

Champanhe, sendo servida a todos os presentes, enquanto Lady Darling convidava oficialmente o casal real para seus padrinhos, o que deixou a rainha tão satisfeita, que quebrando o protocolo, deu um beijo na face de Darling dizendo:

Claro, querida Darling, claro com muito prazer para nós!

E todos ficaram muito surpresos, pois nunca haviam visto a rainha fazer aquilo. Ela devia gostar muito de Lady Darling, todos comentavam.

Cumprimentos ao casal, abraços, apertos de mão. A noite não fôra monótona, e sim bem movimentada e até demais para os hábitos e tradições inglesas, tudo por causa do meu Phill.  

O relógio da velha matriz iniciava, com seu forte sino, o badalar das 23 horas, quando os convidados começaram a se retirar do Britânia. Após as potentes lanchas levarem todos para terra, fui sendo baixado, e mais uma vez os apitinhos tocaram quando Phill se despedia de sua Darling e descia a escada do Britânia, com o anúncio:

Retira-se do Iate Real Britânia, Sir Philson Sorensen, o mais novo cavalheiro do reino inglês!

Phill, como sempre, içava minhas velas rápido e com maestria,  suave fomos nos afastando do Britânia, agora muito branco, iluminado pela luz da lua. E Phill acenava, simpaticamente,  com a luva branca para Darling, que no convés repetia o gesto para Phill.

Numa das vigias, junto à cabine de comando no terceiro convés, a rainha, em seus aposentos, olhava seus amigos se despedindo e dizia ao príncipe:

Philip, hoje fizemos duas coisas formidáveis: homenagear um homem de muito valor e conseguimos um bom casamento para nossa boa amiga Darling!

É verdade Elizabeth, Sir Phill é um herói  e um bom partido! 

O retorno ao estaleiro fôra rápido, um gostoso vento terral já chegara, e numa velejada suave em 20 minutos estávamos no estaleiro. Os vigias e 2 marujos nos aguardavam; rapidamente me lavaram e me colocaram no meu local junto à grande janela, da velha oficina, do Museu, que Phill propositadamente deixava sempre aberta, para que eu pudesse conversar com as ferramentas.

Phill dera boa-noite ao pessoal do estaleiro e, ao sair, bem perto de mim disse:

Até amanhã “Pequeno Guardian”, esta noite para nós foi repleta de muitas emoções, e amanhã será um dia de muito trabalho!

Boa-noite Phill, sonhe com Darling!

Ele riu e foi andando em direção a sua casa, comentando:

É Pequeno Guardian, você tem história para contar a noite toda! 

Phill, ao chegar em sua casa, notou a luz da varanda da casa do vovô acesa e reparou estar Margarida cochilando na cadeira de balanço. Ela ficara esperando por ele e acabara dormindo. Phill deu um beijo na testa de Margarida que logo acordou.

Oh! Phill, estava até agora esperando você e, meio sonolenta, falou bocejando:

Me conta, me conta tudo, da recepção do Britânia!

E Phill começou falando de sua nomeação a Sir, mostrando a grande caixa de veludo azul com o bonito colar.

Puxa! Phill, você agora é Sir! Toda feliz exclamou, como ela própria tivesse sido homenageada.

E ainda tem mais Margarida, vou me casar!

O quê? Como? Me conta toda esta história direitinho, sem esquecer nenhum detalhe!

E Phill contou tudo sobre Lady Darling, seus pais nobres, o pedido e a rainha sendo madrinha, o  casamento que seria no Britânia e a lua de mel também, resumindo o relato complementou:

E a rainha virá visitar nosso estaleiro depois de amanhã!

Phill, que noite movimentada, hein? E a rainha visitando o estaleiro! Os jornais de amanhã terão muitos assuntos para tratar! 

Na minha janela, iniciava a conversa com as ferramentas, e o martelo já estava muito curioso e perguntava:

Conta logo “Pequeno Guardian”, conta logo, como é que foi a festa? E a rainha? E o iate é muito grande?

No que o grande serrote deu logo um basta:

Calma, seu martelo, tudo a seu tempo. O “Pequeno Guardian” nos fará uma bela narração dos acontecimentos, tudo a seu tempo. Temos a noite inteira para sermos bons ouvintes, sem nenhuma pressa!

Ouvindo aquilo começara a juntar coisas: como nosso serrote era sabido, tinha bom senso, era astuto, percebia tudo, era nossa Rainha da Inglaterra, ou melhor, o Rei das Ferramentas!

O martelo seria nosso arauto: Toc! Toc! Toc! O formão, o capitão do Britânia, a lamparina grande, o conde, sempre rindo se sacudindo, e comecei a identificar as ferramentas com as pessoas da festa. E comecei a fazer uma brincadeira que deixou todos sem entender nada.

A noite foi horrível, chata, sem graça, não via a hora de voltar para o estaleiro, muita nobreza, um protocolo muito rígido, para este pobre marquês!

O martelo ficou meio desconcertado e disse:

Festa chata? E que negócio é este de proto não sei o quê?

Todos ficaram com uma cara esquisita, quando a bancada de pinho de riga falou:

Calma pessoal, não é nada disso, o “Pequeno Guardian” está é brincando conosco. Aguçando a nossa curiosidade!

Ué! Como é que a bancada adivinhou? perguntei.

Pequeno Guardian”, não se esqueça que vim da Rússia, do tempo do czar, e festa de nobreza com rainha, príncipe, duques, condes e lordes, em local nenhum do mundo, será horrível ou chata!

Alívio geral. E então comecei a contar tudo, tudinho: o apitinho, quando Phill subira as escadas, o local que fiquei, Phill sendo nomeado sir. O homenageado da noite, o jantar, o presente da fragata para a rainha, o passeio com Darling, o beijo, o pedido de casamento, o anúncio da rainha, tudo, mas tudo mesmo!

Aí, os amigos não resistiram:

Hurra! Hurra! Hurra! ao nosso Phill! A Sir Phill!

Hurra! Hurra! Hurra! à Lady Darling!

A lamparina, como sempre, de tanto se balançar, pimba! caiu no chão, só que com o vidro já quebrado, não tinha mais problema, e foi aquela risada geral.

É, e tem mais uma coisa, a rainha virá nos visitar, a oficina do vovô!

O martelo não se conteve e começou a se balançar de euforia, dizendo:

Vou conhecer a rainha! Vou conhecer a rainha!

E de tanto se balançar, caiu em cima da bancada, fazendo muito barulho, o que assustou os vigias, que subiram ao escritório e ao Museu para ver o que estava acontecendo.

Eu não disse que havia ratos aqui! dizia um.

É impossível, temos tudo limpo e ninguém nunca viu um rato no estaleiro! dizia outro.

Chegando na oficina e vendo o martelo solto em cima da bancada, e a lamparina no chão, o primeiro vigia, comentou:

Tá vendo, como tem rato? E colocando a lamparina e o martelo nos seus locais, completou:

Amanhã temos que falar com Dona Rebeca e fazer um bom tratamento contra ratos!

A noite inteira de conversas, explicações, o martelo dizia que com ele agora tudo tinha que ser no protocolo rígido. A bancada se lembrando das festas do czares. Eu contei do marujo, que o oficial achou que estava bêbado, quando me ouviu falar. Conversamos a noite todinha! 

Margarida, por sua vez, era toda felicidade pelo Phill e acabou chorando muito no ombro de Phill, na varanda.

Por que as lágrimas minha querida Margarida? Isto é alegria para todos, não fica bem minha madrinha de casamento chorando!

Oh! Meu Phill! Existe em nós mulheres uma pequena torneira, nos nossos olhos, que por vezes é muito difícil de mantê-las fechadas. Um dia, você muita coisa entenderá melhor sobre nós e Darling será sua melhor e mais querida professora! E como estou tão feliz em ser sua madrinha. Você é realmente a coisa mais linda de nossas vidas, como dizia sempre papai! 

Um fraterno abraço selado com muito carinho, os deixou juntos, admirando aquele cantinho gostoso de nossa praia, a lua prateando o mar, as estrelas levando a cada um seus mais profundos pensamentos, enquanto o suave vento da noite fazia bailar leve as folhas dos coqueiros, daquela maravilhosa ilha do Sul do Pacífico, com suas cristais águas e as brancas areias de suas praias e toda coroada de belíssimos corais a sua volta.

Dona Rebeca, que chegara ao escritório cedo, lia os jornais surpresa, vendo as fotos do capitão ajoelhado, sendo nomeado cavalheiro. A rainha anunciando o próximo casamento de Sir Phill com lady Darling. E como era bonita a noiva de Sir Phill!

De repente, entra no escritório um oficial inglês, com as insígnias do Britânia e cheio de dobrões, o que o caracterizava como emissário e ajudante de ordens da rainha.

Bom-dia, senhora! Sou o Major Robert, emissário de S. M. Rainha Elizabeth II, que virá visitar o estaleiro às 10 horas da manhã!

Aquilo foi a maior surpresa para Dona Rebeca. Iria conhecer a rainha pessoalmente. O ajudante de ordens real colocou que nesta visita seriam acertados os detalhes do casamento de Sir Phill com Lady Darling.

Ao sair o emissário da rainha ela correu para a oficina:

Bom-dia, amigos. Vocês já sabem da última novidade?

Bom-dia, Dona Rebeca! Sabemos de tudinho, o “Pequeno Guardian” passou a noite inteira nos contando a festa!

É, mas as fotos do jornal vocês não viram!

O martelo de cabo de carvalho ficou doido:

Mostra Dona Rebeca, cadê a rainha e Lady Darling!?

Puxa! Como ela é bonita! diziam todos.

Dona lamparina, aqui está seu vidro novo e vamos ter que dar uma boa limpeza aqui, porque a rainha tem que encontrar nossa oficina, um brinco!

Como ficou nossa amiga, Dona Rebeca, ela mesmo nos limpou, carinhosamente, como faziam o vovô e o Phill. E mais, na sua máquina de escrever, datilografou todos os nossos nomes e especificações, colocando a etiqueta de baixo de cada um de nós. Agora éramos importantes também, e lá estava:

 

“Martelo médio, de cabo de carvalho, esculpido por Mestre Estêvão, seu aço é de Guimarães, em Portugal”.

Puxa, Dona Rebeca, como é que a senhora sabe tudo isto a meu respeito?

Ora, fácil, seu martelo! O  capitão me passou o livro onde está tudo escrito sobre cada ferramenta nesta oficina: o que foi que já fizeram, todas as obras, esculturas, veleiros e modelos e o capitão continuou a escrever como Mestre Estêvão.

Ué! Nós nunca soubemos nada disto!

E o velho e grande serrote dizia:

Vocês não se esqueçam de como vovô era organizado e ensinou tudinho ao Phill!

Quando cheguei aqui para trabalhar, no estaleiro, dizia Dona Rebeca, achei isto muito estranho e diferente, e hoje é que entendo porque o capitão escrevia tudo, me passava suas anotações, etc.  Lembro-me que a antiga secretária me contou, que durante a guerra, havia um oficial americano aqui, acompanhando a construção das lanchas torpedeiras. Ele achava tudo perda de tempo, tinha é que se ganhar a guerra, como ele dizia, e não gastar tempo com papéis. Ele se esquecia que a guerra se ganha em todas as frentes, até no fichário de uma humilde secretária!

Isto mesmo! Isto mesmo Dona Rebeca! dizia a lamparina se balançando, tranqüila, pois agora ficara colocada num forte parafuso de bronze, e podia se balançara à vontade, sem cair no chão e quebrar seu vidro novo, que a deixara muito bonita.

Todo mundo ria da Dona Lamparina agora feliz no seu lugar novo e seguro.

Bom dia Dona Rebeca! ─ Bom dia amigos!

Bom dia Sir Phill, ─ dissemos todos!

E foi aquela risada geral. 

Dona Rebeca, pelo visto a senhora começou cedo, já limpou tudo, etiquetou nossos amigos, pendurou a lamparina em novo local e com um belo vidro!

É capitão, já fui me adiantando, pois ainda tenho muito que providenciar! Aqui estão os jornais do dia e todos os dados para a visita da rainha amanhã às 10:00h, ao estaleiro, que o major ajudante de ordens real trouxe cedo, e os demais das suas bodas serão acertados depois da visita, aqui no escritório, e a propósito capitão:

Lady Darling é muito bonita! As fotos estão nos jornais, que não falam de outra coisa.

Obrigado Dona Rebeca. Lady Darling é encantadora e a senhora irá gostar muito dela!

Tenho certeza capitão, o senhor dizendo, tenho toda certeza!

Tenho certeza capitão, o senhor dizendo, tenho toda certeza!

Phill estava muito preocupado, pois o jantar fôra no sábado à noite e hoje era domingo. Na ilha ninguém fazia nada, coisa da religião, e ele tinha que preparar todo estaleiro para segunda-feira pela manhã para a visita da rainha. Mas todo o pessoal lera os jornais e todos pensaram como Phill. E, de repente, todo mundo estava no estaleiro, como se fôra um dia normal. Neste dia as igrejas da ilha não contariam com as presenças do pessoal do estaleiro.

Phill ficara satisfeito, seus funcionários eram bons amigos.  

As ordens foram transmitidas aos mestres, oficiais, assistentes, marujos, todo o pessoal do estaleiro. As seções teriam que estar impecáveis para a visita da rainha. E ao fim da tarde, o próprio capitão faria a revista geral, o ensaio, para tudo estar em ordem na manhã do dia seguinte.  

Dona Rebeca ficara incumbida de fazer os convites às autoridades e aos amigos do capitão. Afora isto, ainda providenciaria um buffet a ser servido após a visita da rainha pelo estaleiro, que teria seu ponto alto na visita da oficina de Mestre Estêvão, o “Museu”.

Tudo arrumado: os modelos de galeões, fragatas, navios, veleiros, etc., o faqueiro da Margarida que vovô fizera, todos os objetos da coleção do vovô, o marreco do Phill, sua primeira peça e diversas fotos de veleiros, barcos e construções das possantes lanchas PT, que foram de grande sucesso da guerra do Pacífico, e uma grande foto da lancha PT, comandada por Phill, a “Vovô”, como era internacionalmente conhecida, e sua tripulação de heróis.  

Dia de muita faxina, arrumações e Phill elaborando os pontos básicos para a visita real, e também as necessidades para o casamento que estava previsto, para no máximo daí a uma semana.

Ao cair da tarde, Phill iniciou a revista de sua tropa, como dizia: almoxarifado, serraria, carpintaria, funilaria e solda, oficina mecânica, refeitório, pátio, carretas, guindastes, etc. Tudo estava perfeito, um exemplo de estaleiro, para produção em série, ou construções navais especiais. A linha de montagem era perfeita com o que tinha de mais moderno na época, em “Organizações e Métodos”, uma nova técnica que era a grande novidade. Phill, de imediato, a adotara, contratando um excelente engenheiro americano, Dr. Larry, que se mudara para a ilha de armas e bagagens e implantara o sistema no estaleiro, com sua esposa Dra. Karen. Gostaram tanto da ilha que de lá nunca mais saíram. Phill admirava muito o casal, em seu trabalho, principalmente. A Dra. Karen, que como médica, instalou o ambulatório no estaleiro para atender aos funcionários e suas famílias, bem como ao povo da ilha, fazendo uma medicina preventiva. Isso rendera grandes benefícios ao pessoal da ilha, de um modo geral.

Dr. Larry era muito orgulhoso de seu trabalho e, agora, muito feliz porque iria conhecer a rainha.

Tudo se encontrava pronto para a visita de tão ilustres personalidades: os metais todos polidos, manetes, trincos, cremonas, enfim tudo brilhando. Phill estava orgulhoso do trabalho de sua equipe e, ao fim da  revista, reuniu todos no pátio para as informações finais.

Meus amigos, dizia ele, a rainha e demais autoridades estarão no estaleiro às 10 horas, assim às 9:30 h, todos estarão nos seus postos, vestidos com seus macacões, jalecos, aventais, etc., bem limpos. A visita está programada para ter seu início pelo almoxarifado, segundo o esquema projetado por Dr. Larry. A enfermaria se encontra de prontidão, com a ajuda da Dra. Karen. Cada mestre e oficial já têm em mãos o trajeto que será feito, e o aviso mais importante: ninguém se dirija à rainha, se ela não o fizer, e o aperto de mão, só se ela estender a sua primeiro para o cumprimento.

Todos entendidos? E todos responderam:

Sim, capitão, perfeitamente!

O estaleiro tinha uns 150 funcionários, orgulhosos de trabalharem com o Capitão Phill e, por sua causa, iriam agora conhecer a rainha.

Na verdade, todos estavam muito ansiosos, não só em conhecerem a rainha. A curiosidade maior era conhecer Lady Darling, que as fotos dos jornais mostravam ser ela muito linda. O comentário era geral, sobre esse assunto, no estaleiro.

Lady Darling deve ser uma beleza mesmo, para fazer par com o capitão, só sendo muito bela mesmo!

Finalmente, amanhecera o grande dia. Todos nós na oficina ansiosos, mal nos contínhamos. Todos preparadíssimos. Eu fôra baixado ao nível do piso, colocado na minha carreta, todo armado e ao lado do grande tronco de mogno com a minha plaquinha dizendo quem era, “o último barco construído por Mestre Estêvão”.

Não sei o porquê, mas todas as vezes que lia os dizeres daquela placa, sempre ficava com um nó na minha voz! Me lembrava muito do vovô nestas ocasiões! E agora a Rainha da Inglaterra iria ler aquela plaquinha, muito polida, brilhando.

O retrato do vovô no escritório, ao lado da mamãe de Phill, estavam muito bonitos. Margarida os havia colocado em destaque, com pequenas flores do jardim de sua casa, que vovô tanto gostava. Eram flores branquinhas que tinham um gostoso e doce perfume. Eu gostava muito delas, porque vovô sempre tinha uma florzinha destas atrás de sua orelha e o Phill também o fizera sempre como o vovô, assim como todos os homens da ilha. Esta florzinha, eles chamava de jasmim.

Às 10 horas, exatamente, horário de Jardim Botânico, começaram a parar os automóveis em frente à oficina. Só dois entraram no pátio do estaleiro: o da rainha e o de Lady Darling, com seus pais, os Westerfield.

Ao ser aberta a porta do carro da rainha, pelo oficial ajudante de ordens, que fôra ao estaleiro falar com Dona Rebeca, um tapetinho vermelho se desenrolava sozinho, que aparecia não sei de onde. Eu achara aquilo muito engraçado, parecia até alguma mágica que vovô fazia, quando a moeda sumia, a banana descascada estava toda cortadinha dentro, etc.

Phill se adiantou e a rainha lhe estendeu a mão.

Bem-vinda, majestade! Bem vinda ao vosso estaleiro, que hoje está em dia de festa. É muita honra para nós vossa presença real!

Bom dia, Sir Phill. Para vossa rainha é um grande prazer!

Eu ficara confuso; pensava que o estaleiro era do Phill, mas ele dizendo que era da rainha. Não entendi mais nada, ou melhor,  agora sabia que ela era dona de tudo, por isto estava certo quando disse que era a Rainha da Terra.

Majestade, gostaria de vos apresentar Lady Margarida, única filha de Mestre Estêvão!

Margarida se curvou em honra à rainha, que se adiantou, levantando-a com suas duas mãos. Para surpresa geral, a rainha se esquecera do protocolo, ou melhor, o quebrara, como todos diziam baixinho. Ela nunca fazia isto, só quando desejava realmente honrar muito a alguém.

É muita honra para o casal real, Lady Margarida; tanto para vossa rainha, como para o Príncipe Philip e somos vossos admiradores por seu inesquecível trabalho na Cruz Vermelha nesta ilha, durante a  guerra, e chamou o oficial ajudante de ordens, com um movimento discreto. Ele chegou com uma caixinha de veludo vermelho e um pequeno canudo.

Lady Margarida, pediu-me a Cruz Vermelha Internacional que fizesse, pessoalmente, a entrega desta comenda, o que faremos com prazer e honra. E abrindo a caixinha, tirou uma linda medalha, colocando-a na gola do vestido de Margarida e, a seguir, passou às suas mãos um papel todo enroladinho, que estava dentro do canudo: era o certificado da medalha.

Todos bateram muitas palmas para Margarida, que emocionada deixou rolar algumas lágrimas e foi logo abraçada por Phill, onde nos seus fortes ombros tentava esconder as lágrimas.

A rainha, mais uma vez quebraria o protocolo, se adiantou e passou suave a mão nos cabelos brancos de Margarida e disse:

Lady Margarida, compreendo sua emoção, mais que todos, e isto prova ser uma heroína de fato!

Aquele gesto da rainha conquistou, de imediato, a todos no estaleiro, pois Margarida era admirada e querida por todos, pois ela era para nós,  a nossa rainha.

Realmente, a rainha sabia das coisas, já chegara agradando, sem descer da sua realeza, pensava comigo, que cada vez ficava mais fã da “rainha de tudo”.

Phill, rapidamente, dirigiu-se à Lady Darling e ao conde com a esposa. Todos ficaram maravilhados com a beleza de Lady Darling, que estava linda, linda! Com um belo vestido branco, meio rodado, com finíssimos babados, uma faixa azul clara como cinto, deixando duas tiras pendendo ao lado, muito alinhadas; um belo chapéu branco de longas abas, que não escondia seus belos cabelos vermelhos, pelo contrário, os  realçava. E seus brilhantes e lindos olhos verdes, transparentes como nossos águas, coroavam aquele elegante e lindo semblante.

Puxa é a moça mais linda que já vi em toda a minha  vida! dizia o martelo lá de cima.

Phill apresentou a bela Lady Darling à Margarida, que nunca vira tanta beleza somada em uma só mulher.

Linda Phill! Linda, como você merece!

E ambas as mulheres, com um elo em comum, se abraçaram carinhosamente.

Phill, à frente, de braço dado com Darling,  ia mostrando todo o estaleiro à rainha e sua comitiva, como havia sido planejado, minuciosamente por Dr. Larry. Aliás, Dr. Larry e Dra. Karen foram cumprimentados pela rainha, com a mão estendida, o que os deixou muito surpresos.

Passando por mim, antes de subirem as escadas do escritório, a rainha deu uma longa parada, leu minha placa, rodou ao meu lado, me vendo por dentro e por fora. Com sua mão enluvada, alisou o verniz da minha borda e disse para Phill, dando leves e gostosos tapinhas reais em mim:

Gostaria de um dia poder velejar no “Pequeno Guardian”, Sir Phill!

Quando quiser majestade! Quando quiser! disse Phill.

Uau! A rainha quer velejar em mim! E lá de cima podia ouvir meus amigos:

Hurra! Hurra! Hurra! ao “Pequeno Guardian”!

Estavam agora no escritório, Dona Rebeca iria conhecer a rainha.

Vossa majestade, esta é Dona Rebeca. Está conosco há muito e conhece, melhor do que eu, tudo neste estaleiro! ─ colocou Phill.

Dona Rebeca, como manda a etiqueta, suavemente se curvou, até a barra do seu vestido encostar no chão e levantou-se. A rainha estendeu-lhe a mão, que foi a glória para Dona Rebeca e todos nós víamos ela com as mãos trêmulas, nervosamente, cumprimentar a rainha, que gentilmente disse:

Muito prazer, Dona Rebeca. Todos nós já ouvimos muito falar de seu trabalho, e agora vejo que os elogios eram mais que verdadeiros!

Dona Rebeca estava avermelhada como uma maçã, com seus cabelos grisalhos e seus brilhantes olhos azuis. E a rainha complementou:

Não fique nervosa, Dona Rebeca. Estamos encantados por ver tanto esmero e dedicação.

Aquilo emocionara a Dona Rebeca, que deixou, despercebida e furtivamente, correrem, por detrás de seus óculos, lágrimas, distorcendo a imagem real, momentaneamente.

Todos nós ficamos muito quietos perante a forte emoção de nossa boa amiga Dona Rebeca, que a sua maneira recebia também sua medalha.

Phill apresentou Lady Darling à Dona Rebeca. Lady Darling  dirigiu-se  à Dona Rebeca:

É para mim um prazer muito grande, conhecer a pessoa que é o braço direito de Phill, no estaleiro, Dona Rebeca!

Obrigada, muito obrigada mesmo, Lady Darling por suas tão simpáticas e delicadas palavras!

Phill percebeu que Darling e Dona Rebeca seriam grandes amigas.

Por fim, a comitiva real adentrou à oficina; tudo arrumado, etiquetado, nos seus locais, com os modelos já prontos arrumados, e os em construção como se tivesse o artesão parado para receber alguém, nada forçado, tudo muito natural. A rainha, suave, pediu licença a Phill e, disfarçadamente, colocava a mão no retrato do vovô. Retirou uma florzinha e ficou sentindo o perfume, rolando entre seus dedos polegar e indicador. Olhando, em silêncio, os retratos do vovô e da mamãe de Phill, por alguns minutos, eles também haviam sido cumprimentados pela rainha.

Aquilo nos deixara muito embaraçados. Tudo dito e feito pela rainha  tinha-nos deixado desconcertados.

A rainha, olhando as ferramentas, parou em frente ao martelo, detidamente. Phill já havia lido os pensamentos do martelo e tirando-o de seu local, o colocou nas mãos reais. Ofereceu à rainha uma pequena tabúa de mogno e um pequeno prego de bronze. Ela,  num só golpe  certeiro,  cravou-o no mogno.

Todos ficaram surpresos com a perícia da rainha, até ela, e bateram muitas palmas.

Belíssima ferramenta, Sir Phill, das mais perfeitas que já vi, a impressão que dá é que ela auxilia o trabalho. Fica explicado o sucesso das obras construídas por Mestre Estêvão e pelo senhor.

Phill colocara o martelo no local. Calado não dizia nada. Estava pasmo, perplexo, queria falar e não conseguia, logo ele que tinha a língua solta, falava pelos cotovelos. Estava mudo. Perdera a língua.

E o grande serrote, baixinho, sussurrou:

Coitado, foi muita emoção, ser pego, e mais que isto, usado pela rainha da Inglaterra. Ele não agüentou tanta emoção!