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Sou uma enorme árvore, vivo na
floresta de uma grande ilha cheia de muitos amigos e amigas, a minha
volta. Sou tão grande que não consigo das minhas folhas ver direito o
chão. Tenho fortes raízes, que se sustentam e me seguram nos fortes
ventos.
Sou o “Mogno”,
e o maior da minha família, na nossa ilha!
De cima de meus galhos, vejo o azul
cristal, a praia de areias brancas, e todo os corais que cercam nossa
ilha. Vejo tudo até o horizonte, crianças brincando, grandes veleiros, com
suas brancas velas e bandeiras de muitos países na suas popas.
Nas minhas folhas tenho muitos
amigos, os passarinhos, lindos de diversas cores, que têm linda música
quando cantam.
Minha floresta é linda, tem todo o
tipo de animais, que são bons amigos estando sempre comigo, e quando chove
todos ficam sob minha proteção.
Todos me conhecem como “o
grande Mogno”!
Estou aqui faz muito tempo, cheio de
muita alegria na minha grande floresta, e por vezes, aparecem pessoas para
me visitar e conhecer, e nas minhas sombras descansam.
Num dia de manhã, com muito sol,
comecei a escutar muito barulho, de árvores sendo jogadas no chão, gente
fazendo muito barulho, homens andando muito depressa no meio do mato,
quebrando tudo com forte parelha de bois.
Até que pararam na minha frente, e
logo chegaram mais homens.
Eu não entendia nada. Falavam entre
si de modo esquisito, me olhavam, colocavam cintos amarelos cheios de
números no meu tronco, e falavam sempre e muito.
Nunca tinha visto tanta gente! Pois
as pessoas que conheci, sempre eram poucas, não faziam barulho e eram
muito simpáticas, me alisavam e se deitavam aos meus pés. Estas não, eram
muito diferentes.
Um homem grande, com umas botas de
pregos, começou a subir rápido em mim, me ferindo e arranhando todinho,
até que chegou nos meus últimos galhos, e amarrando uma forte corda, a
jogou ao chão, por ela descendo. Uma brincadeira sem graça, porque nem se
balançar ele o fez, foi direto para o chão como um galho podre.
Conversas e mais conversas e, de
repente, comecei a ficar com muito medo, eles pegaram numa boca enorme
cheia de dentes e começaram a me morder. Um puxava e outro empurrava a
boca dentada e comecei a ser cortado.
Ai! Ui! Não faz isto não! Ai! Ai! Ui!
Ui! Nããooooo!!!!
Eu não sabia o que fazer,
balançavam-me com a corda grande, e quando olhei estava caindo...
caindo... caindo!
Estou no chão e olhando para cima,
vi um grande clarão na floresta. Meu lugar ficara vazio!
Rapidamente cortaram todos os meus
galhos e fiquei nu, só com o meu tronco.
Chorei, chorei, chorei muito, mas
não adiantava de nada! E todos meus amiguinhos olhavam de todos os lados
para mim, com uma cara muito triste.
Amarraram-me e os bois começaram a
me puxar até onde estavam outros troncos. Vi o pinheiro, o carvalho, o
primo cedro, estavam todos lá, tristes, e agora chegara eu.
─
Até você, “o grande Mogno”!
Era um espanto geral!
Fomos puxados para um grande
reboque, e tristes começamos a andar, vendo nossa floresta se afastar,
nossas vidas estavam se acabando, pensava e conversava com os amigos na
desgraça.
O caminho foi longo, na mata, numa
estrada de terra até sairmos numa estrada grande preta, que nunca tinha
visto, nos amarraram com cabos de reboque a uma coisa que fazia muito
barulho e fumaça. E fomos andando, agora bem rápido. Não vi nenhum reboque
como o nosso.
No caminho passamos por uma grande
floresta, eram pinheiros. Mas já via que muitos estavam no chão sendo
empilhados em montanhas de troncos. Que pena, pensava. Estão acabando com
toda a floresta.
Depois de muito andar, começamos a
ver casas. Algumas de madeira, e alguns amigos falavam entre si:
─
Será que vou ser casa também?
Aí é que pirei de vez. Virar casa,
todo cortado, preso a vida toda num mesmo lugar, apanhando chuva. Qual era
a vantagem?
E o pinho dizia:
─
Casa todo mundo cuida, sempre pintada, gente morando!
Eu dizia:
─
É mas sempre no mesmo lugar. E sou mogno e pelo que os homens falaram sou
muito caro, para ser casa!
E o cedro, meu primo, dizia:
─
Primo mogno, como eu, você será, moveis, molduras, etc...
Eu fiquei foi calado. Não gostava
daquilo que falavam, virar coisas!
De repente, paramos. E, quando
olhei, estávamos em frente a uma grande casa sem paredes, cheia de
madeiras, pedaços pelo chão, e pó de serra, onde tinha uma grande placa
escrita:
“Serraria da Ilha”
Apareceu, então, um velhinho
simpático, com cabeça branca e a barba também, que todo mundo chamava de
vovô, um rosto calmo, um olhar amigo para mim, pelo menos isto, melhorava
um pouco a minha dor.
─ Vovô este é o
“grande mogno”, que o senhor encomendou! diziam os homens que me haviam
cortado.
Senti a mão macia do velhinho me afixar dizendo:
─
Amigo, você terá uma grande surpresa quando acabar de trabalhá-lo!
─
Ué! o vovô fala comigo, como é que ele sabe que estou escutando?
E vovô comentou:
─
Você está achando estranho não é mesmo, falar com um tronco! Não meu
amigo, seu sacrifício será recompensado, irei fazer de você algo nunca
mais esquecido. Você será o “Pequeno Guardian”,
o mais lindo barquinho que já construí!
E todos diziam para mim:
─
Que sorte a sua, hein mogno, encontrar um vovô, que conversa conosco
e sabe tudo a nosso respeito. Você tem mesmo muita sorte!
Dos males, o menor, pelo menos já
sabia meu destino e como todos diziam, iria ter uma vida bem diferente!
Começaram a me descascar, e lá fui
eu para uns grandes serrotes que faziam um barulho horrível, e virei mogno
cortado, todinho! Quando acabaram de me cortar, é que comecei a ver como
era bonito por dentro, avermelhado, macio.
─
Poxa, não sabia que era tão bonito! exclamei surpreso.
Vovô me acompanhou em tudo, dizendo
como queria e mais uma vez me alisou dizendo:
─
Você é muito bonito, o mais belo mogno que já vi!
─
Obrigado vovô, este elogio me deixou um pouco menos triste.
Comecei a perceber ali que o vovô
iria ser um grande amigo, só que ainda não tinha idéia de quanto grande
seria nossa amizade.
─
Adeus amigos! dizia aos troncos.
─
A gente se encontra por aí! E comecei a notar que nós madeiras, estávamos
em todos os lugares.
Do chão da serraria fui para a
charrete do vovô, e comecei a notar que ele não gostava muito do jeito que
os homens me pegaram, e volta e meia dizia:
─
Não arranha o meu mogno, pega ele com cuidado, coloca aqui, põe ali!
Orientava tudo e como queria.
O vovô cuidava bem de mim! Ele
próprio me amarrou, com fortes cordas e proteções de panos, para não me
marcarem, e fiquei todo arrumadinho na charrete do vovô.
O destino era a casa do vovô, sua
oficina, que devia ser muito boa, pois todo mundo dizia:
─
Lá vai o mogno ser trabalhado por um artista! E outro completava:
─
O seu Estevão sabe das coisas. É mestre e tem a melhor oficina destas
ilhas!
Agora já sabia, o nome do vovô era
Estevão!
A OFICINA DO VOVÔ...
Vovô morava numa boa casa, toda arrumadinha, do mesmo jeito dele; uma casa nem grande nem pequena, e
junto, uma bela oficina, pertinho daquelas praias que via sempre, de águas
azuis transparentes e areias muito brancas. Na frente da casa havia uma
bela varanda, virada para o mar e um jardim cheio de coqueiros e cadeiras
gostosas e bonitas.
Ao entrarmos na oficina, vovô foi
logo falando:
─
Bem amigos, este é o mogno que falei a vocês, ele será o mais belo
barquinho que já fiz!
Foi assim que vovô me apresentou a
seus amigos da oficina.
O grande serrote me deu logo as boas
vindas. Eu, apavorado com seus feios dentes.
─
Eu sou o grande serrote, bem-vindo mogno, à oficina do vovô, prometo que o
cortarei, certinho e sempre com muito cuidado!
─
Olá, mogno, eu sou o torno, irei fazer em você detalhes lindos, seja
bem-vindo!
─
Como vai, mogno, eu sou o martelo, e não machucarei você, pode ter certeza
disto; não gosto de bater nas madeiras, trabalho sempre em dupla com o
formão, vamos ser bons amigos!
E todos conversavam comigo e me
davam as boas vindas, com muita atenção e carinho, da plaina aos grampos,
passando pelo formão, pequenos serrotes, outros formões, chaves de
parafusos, pincéis, etc... Aquilo me deixara mais alegre, os novos amigos,
as ferramentas do vovô, que eram muitas, gostavam de mim e estavam
felizes, com minha chegada. E pela primeira vez, senti novamente aquela
sensação da floresta, de ter amigos e por eles ser admirado.
Vovô, cuidadosamente, foi me
tirando da charrete, peça por peça, me colocando num bom local, arejado.
Não tinha contato direto com o chão, e fiquei arrumadinho, olhando curioso
e maravilhado para todas as ferramentas, que comecei a notar bem, todas
bem cuidadas com cabos trabalhados de diversas madeiras. Serrotes de
vários tipos e tamanhos. Formões diversos com pontas diferentes. Martelos
lindos de todos formatos. Plainas grandes, pequenas, e diferentes. E podia
notar como todas eram muito felizes. O mais amigo, era aquele martelo com
cabo de carvalho, que me dizia:
─
Toda vez que o vovô nos pega, sempre nos dá uma alisada dizendo:
─
Você irá fazer um bom trabalho, seu martelo!
─
Ué! O vovô fala com vocês também é?
─
Claro! ─ dizia o grande serrote. O vovô, sempre conversa conosco, nos dá
tapinhas, bom dia, boa noite, e sempre nos deixando limpinhos e oleados
depois do trabalho, por isto é que fazemos de tudo, para seus trabalhos
ficarem os melhores, serem perfeitos.
Já estava escurecendo, quando o
vovô acabou de me arrumar, e a oficina, todo mundo nos seus lugares,
prontos e limpos. Cada um tinha seu próprio local, tudo desenhado nas
paredes. Outros encaixados, em gavetas arrumados, com seus locais em baixo
relevo, e ninguém era deixado solto, ou fora de lugar.
Uma alisada em mim e o vovô
dizia:
─
Até amanhã seu mogno, tenha uma boa noite na sua casa nova!
─
Boa noite a todos vocês, meus amigos. Até amanhã!
Que gostoso, nunca ninguém tinha me
alisado e desejado boa noite, e todo mundo respondendo, até eu:
─
Boa noite vovô!
Ele riu. Apagou a grande lamparina, toda
trabalhada, muito bonita, colocou seus óculos no bolso da camisa, fechou
as grandes portas da oficina, minha nova casa, que seria por muito tempo.
Meu dia que começara tão triste, estava
tendo seu fim mais alegre, e fiquei pensando. E meus amigos, como
ficariam?
─
Mogno, já sei o que você está pensando. É sobre seus amigos, não é?
─
Ué! Como é que você sabe seu martelo?
─
É que todos passam por estes momentos. Não se preocupe, cada madeira, tem
seu próprio destino. As madeiras nobres são utilizadas em coisas que
necessitam de resistência, força, e ainda há aquelas que são belas; essas,
como o cedro e o mogno, são utilizadas em coisas duráveis e bonitas:
entalhes, gravações e esquadrias. Todos, cada um tem o seu destino. E o
seu, meu amigo, pelo que sei, será muito longo.
─ Poxa, seu martelo, aprendi
muita coisa, e vi muita coisa, no dia de hoje, estou até meio confuso,
tonto, com a cabeça cheia de coisas novas!
─
É mogno, e você ainda irá, cada vez, aprender mais, como madeira nobre!
─
Agora me explica uma coisa, porque a bancada é diferente dos pinhos que
conheci e vocês chamam ela de “pinho de espiga” ela é parente do milho, é?
─
Não, não é nada disto, seu mogno! ─ dizia a bancada.
─ Meu nome é Pinho de Riga, uma
cidade a leste na Europa, num país chamado Rússia, estou com minha família
em todos os locais do mundo. Sou forte e resistente, porque tenho entre
minhas fibras uma resina especial, que me deixa muito bonita e cheirosa
também, um perfume que só eu tenho que me identifica logo.
Tive, como você, a sorte de ser
encontrado pelo vovô, num depósito de material de demolição, pois fui
madeira de um telhado de uma grande casa. Agora sou uma bancada de mestre,
e dos melhores, como você verá no futuro ser o vovô, mestre Estêvão!
─ Poxa! Quanta novidade! E ficara
ansioso pelo chegar do dia seguinte.
O vovô vivia sozinho na sua casa.
A vovó, como me contaram, havia há algum tempo ido para o céu, e sua vida
inteira fôra de construir barcos. Já havia feito belos veleiros, e até
mesmo iates; agora só construía pequenos veleiros, e tinha feito um
desenho todo especial para mim.
Ele tinha uma única filha que chamava-se
Margarida, que lhe dera um único neto, que o vovô adorava, mas que na
oficina todos o achavam muito chato. Tirava tudo do lugar, fazia a maior
bagunça. Quem mais se aborrecia era o martelo de cabo de carvalho, que
tinha a maior bronca do “Tristão” e, vez por outra, dava uma martelada no
dedo, pois o “Tostão” adorava dar com o martelo em tudo. Todos o chamavam
ele de “Tostão”, porque era pequeno, chato e não valia muita coisa. Ele
desarrumava toda a oficina e o vovô, com paciência, e muita, ia arrumando
tudo atrás dele, e carinhosamente tentava ensiná-lo a usar as ferramentas,
mas o “Tostão” sempre dizia:
─
Já sei!
─
Já sei!
─
Já sei como é, conheço tudo!
O “Tostão”, como todos diziam e depois vim
confirmar, pessoalmente, quando me chutava, era realmente muito “chato”!
Ele realmente tinha o apelido merecido:
pequeno, chato, não vale muita coisa, e só incomodava.
O vovô havia feito um projeto todo
especial para mim, onde me tornaria um lindo barquinho, todo em mogno, com
um só mastro, tabuado, com cavernas entalhadas, com um lindo desenho todas
elas. Uma bolina móvel e a minha proa um pouco fechada. Era muito
trabalho, porque tudo era muito detalhado, torneado, moldado, enfim
ficaria uma beleza depois de pronto. O trabalho todo até o final, com
vela, pintura, verniz, etc... levaria 3 anos, e seria o último barco que o
vovô faria.
Com o restante da minha madeira, faria
esculturas, pequenos modelos de veleiro, que as ferramentas, adoravam e
diziam valer muito, quando pronto, com encomendas até de outros países, e
finalmente faria cabos para novas ferramentas. Eu seria todinho
aproveitado.
─
E lá fomos nós virando barquinho!
O vovô colocava os moldes em mim,
desenhando as peças. Os serrotes me cortavam com muito cuidado. O formão
me entalhava lindo, com a ajuda do meu amigo martelo. Minhas peças iam
sendo numeradas. Até que fiquei com meu esqueleto todo montado.
─
Puxa! Você está ficando perfeito, hein mogno!
─
todos na oficina diziam.
─
É, mas agora já sou, ou melhor, estou virando o “Pequeno Guardian”, graças
ao trabalho do vovô e de vocês todos estou começando a tomar forma!
O tempo foi passando... passando...
passando...
Tristão, “o Tostão”, agora com 12 anos, um
rapazinho, continuava o mesmo, e até pior, porque queria utilizar as
ferramentas do vovô e suas nobres madeiras nos seus inventos, como
carrinho de rolimã, espadas, etc., o que vovô, gentilmente, não permitia,
comprando para ele uma caixa de boas ferramentas e madeiras para seus
inventos. Ele não gostava e deixava de lado. O negócio era utilizar as
ferramentas do vovô, que sempre davam o troco: dedo inchado pelo martelo,
mão cortada pelo formão, etc.
Quando vovô falava com ele, fazia
logo malcriação, era terrível!
Estava chegando ao fim do meu trabalho, já
estava todo montado, após quase 3 anos, só faltava agora a minha pintura,
e gravar o nome na minha popa, que vovô fez com muito capricho e arte. E
lá, um dia, estava batizado.
O trabalho fôra feito com todo
esmero e precisão, tudo perfeito, parafusos de bronze, lindos metais, em
bronze também, eu virara uma jóia!
Minha pintura era uma beleza. Todo branco,
esmaltado, por fora, e por dentro envernizado, um verniz que parecia
vidro. Tinham sido aplicadas 12 mãos, era lindo, todo o desenho de minhas
fibras eram expostas com rara beleza.
O mastro e a minha retranca
haviam sido feitos de madeira, cedro e pinho, laminados fortes e
resistentes, onde receberia minha vela mestra e, na proa, ficaria minha
pequena buja. A bolina me deixava mais estável, a mestra me daria bom
impulso, e a buja orientaria bem minha direção.
O Natal chegara e, então, é que
todos soubemos que seria eu o presente do “Tostão. Vovô, nunca dissera
nada a ninguém e fôra a maior surpresa para nós na oficina, e foi uma
triste surpresa, todos tristes por minha causa.
─
Coitado do “Pequeno Guardian, na mão do “Tostão” acaba em 6 meses!
Eu já começara a ficar preocupado com
aqueles comentários.
─
Vocês acham mesmo, é?
─
Amigo, você já viu como foi a história da caixa de ferramentas. Vai ser a
mesma coisa!
─
Se nós não o machucássemos, teríamos o mesmo fim!
O Natal chegara, vovô fazendo árvore de
natal, decorando a casinha com bolinhas coloridas, fios dourados. Tudo
ficara lindo.
De repente, vovô entra na oficina e me
leva para o jardim e me veste todo de papel de presente, com um belo laço
no topo do meu mastro, com fitas vermelhas e douradas caindo para meus
bordos. Vovô estava todo alegre, assobiando e cantando:
─ O presente do Tristão, é um barcão!
─
Meu “Pequeno Guardian”, meu último trabalho, você será meu presente de
Natal para meu único neto!
─
Tudo bem vovô, mas como vai ser? O Tristão mora longe da praia, no meio da
ilha, numa casa sem terreno, como as ferramentas me contaram, não tem
espaço para mim lá!
─
Não, meu “Pequeno Guardian”, você ficará aqui em casa, e aqui é que o
ensinarei a velejar, a ser carinhoso com você, e acabarão sendo muito bons
amigos!
E o vovô fazia planos, quando Tristão
soubesse velejar, seria capitão, etc.
─
Dos males, o menor, diziam todos. Pelo menos, o “Pequeno Guardian” ficará
junto de nós! Meu verniz é que adorou, não seria arranhado em transportes
de um lado para o outro.
Terminando todo o meu trabalho, vovô ainda
fizera uma linda carreta para mim, que era uma deliciosa cama,
confortável, gostosa, equilibrada e acolchoada que protegia minha pintura.
Eu estava completo.
Festa de Natal!
Margarida chegara com o marido,
que nunca soube o nome dele, era caladão, não falava com ninguém. A
impressão que dava é que não gostava da casa do vovô. Ficava todo o tempo
sozinho, num canto, não dizendo palavra, o pessoal o chamava de “Mudo”.
Ele nunca chegara perto da oficina. E as ferramentas contavam que a vovó
sempre ficava triste quando via sua única filha com o “Mudo”.
Margarida era simpática, amável, educada,
uma doçura, filha que a vovó adorava. Ela, como sempre, alegre e risonha,
trouxera tudo: bolos, saladas, peru, presunto e os presentes para o pé da
árvore. Eu achava tudo muito estranho, nunca vi árvores na minha floresta
com presentes nos pés.
Eu era muito grande para ficar no pé da
árvore, e havia sido colocado no jardim, entre a varanda e aquela praia
linda, de areias brancas, na minha carreta e todo vestido para presente.
Vovô não dissera nada a ninguém, que eu
seria o presente do Tostão que, a todo momento, perguntava:
─
Vovô, onde está meu presente?
─
Vovô, onde você botou meu presente? Não estou vendo na árvore!
E vovô respondia rindo, alegre, feliz:
─ Espere um pouco, Tristãozinho,
tudo a seu tempo! O vovô era todo felicidade, o próprio Papai Noel.
O jantar, a ceia de Natal, fôra
ótimo, exceto o copo de cristal, de estimação da vovó, que o “Tostão”
quebrara, brincando de batida de carrinho. O vovô não ficara nem triste,
nem aborrecido, pelo sim, pelo não, guardou os copos de cristal, a fim de
evitar novas trombadas.
Margarida quando chamou a atenção do
filho, recebera em resposta, uma cara feia do “Mudo”.
─
Hora de abrir os presentes! ─ dizia alegre o vovô.
Vovô recebera de Margarida um
belo par de formões, muito antigos, que ele adorou, ao notar que eram de
aço de Guimarães, e um belo quadro, com o desenho do “Endeavour”, o navio
do capitão Cook, que descobriu o Pacífico e suas ilhas, do Havaí à Nova
Zelândia e Austrália, uma aquarela linda, que o deixou todo feliz.
Por sua vez, ele havia feito um
faqueiro belíssimo para Margarida e o “Mudo”, todo de prata com os cabos
de mogno entalhado, e numa linda caixa de carvalho trabalhada, com
detalhes em bronze, toda encerada. Cada peça do faqueiro, era entalhada
com motivos náuticos: veleiros, âncoras, timões, etc.
Margarida ficara feliz e, mais que
tudo, sabia a fortuna que valia aquela jóia feita por seu pai, o famoso
mestre Estêvão. Beijava o vovô, com lágrima nos olhos. Felicidade, e nunca
se veria um faqueiro como aquele, nem na corte da Inglaterra.
O “Mudo”, como estava, ficara, não
dissera palavra.
─
Agora, o momento mais importante do Natal, meu presente para o
Tristãozinho! ─ dizia alegre e rindo o vovô, que o levou à varanda e, com
voz de Papai Noel, disse ao neto:
─
Aí está Tristão, seu presente de natal, “O Pequeno
Guardian”, o último barco que fiz na minha vida, é seu!
Margarida não conteve suas lágrimas,
que rolavam por suas faces, vendo todo o belo trabalho de seu pai e se
lembrando de sua adorada mãe.
O “Mudo” não dissera nada, como
sempre mudo estava, mudo ficara.
E então veio, como uma bomba, a
grande surpresa para o vovô e todos:
─
Quem é que disse que eu queria um barco! Não gosto disto, estava era
querendo uma bicicleta!
A grande novidade da época, uma
coisa desengonçada, que todo mundo se quebrava todo, até ficar direito em
cima!
─
Não quero nenhum barco feio, de presente de Natal!
Aquilo para o vovô fôra um choque
terrível, 3 anos de tanto trabalho e, no final, aquela malcriação toda, e
o pior, ainda me chamara de feio.
Vovô não dissera palavra. Calmamente
calado, no seu jeitão, puxando leve minha carreta, me levou de volta à
oficina, ao meu local, onde fôra carinhosamente construído.
─
É meu “Pequeno Guardian”, aqui você nasceu, aqui você ficará, até que um
dia apareça alguém que saiba admirá-lo!
─ disse triste o vovô.
Na oficina, todos quietos, calados e
tristes quando viram brilharem pequenas gotas d’água, sob a luz da
lamparina, no canto dos olhos do vovô. Ele tirou seus óculos e guardou-os
no bolso da camisa, enquanto apagava a grande lamparina.
Todos se calaram pela dor do vovô, e
o grande serrote falou:
─
O vovô hoje está do mesmo jeito, quando a vovó foi pró céu!
Margarida estava branca, surpresa,
não entendia aquilo e complementando sua surpresa e de todos naquele
Natal, o “Mudo” falara;
─
Não tem problema meu filho, amanhã compro uma bicicleta para você!
Com uma desculpa boba, a Margarida
resolveu voltar para sua casa, face a sua revolta e todos saíram, e o vovô
ficou na varanda, olhando o mar, os coqueiros, naquela noite triste do
verão, triste para ele.
Com seu velho cachimbo, por ele
mesmo feito, de cerejeira, perdeu-se no meio da fumaça, tirando longas e
gostosas baforadas.
Eu ficara lá, na minha oficina,
pensativo, com meus amigos, calado, sentindo a decepção do vovô, e
pensando: o “Tostão” deixara o vovô tristão.
Dia seguinte, todas as crianças
usando seus brinquedos, presentes de Natal, e eu na oficina, ainda coberto
com parte daquele papel rasgado, me abafando e me lembrando da noite
anterior, quando, de repente, aparece o vovô, vestindo uma bela bermuda
branca, uma camisa de marinheiro e seu tradicional boné.
─
Oh! ─ diziam todos na oficina.
─
Olha o vovô com roupas de velejar!
─
Bem meu “Pequeno Guardian”, nós vamos dar umas voltas nessas gostosas e
claras águas de nossa praia!
Aquilo para mim era o máximo, a
primeira velejada, a primeira volta com o vovô e naquela praia que tanto
gostava. Era inacreditável.
Tira papel, bota vela, escota,
aberta a mestra, a buja, deixa a bolina preparada, e lá fui com minha
carreta pelas finas areias, igual talco, até pousar suave meu casco
naquelas águas cristais, vidro, transparentes e belas.
Que sensação gostosa, flutuar, ver o
fundo do mar. A água refletindo o branco do meu casco como um espelho.
Rapidamente, vovô já estava sentado
em mim, caçando minhas velas e começara a deslizar suave, leve, como um
cisne branco, e o vovô feliz me conduzindo.
Na praia, como que encantados, todos
ficaram parados, igual estátua, acompanhando o meu navegar e a maestria do
vovô me velejando. Como era gostoso aquilo, eu, um barquinho clássico de
madeira, nas mãos de meu escultor, artista e condutor.
Ao passarmos mais perto da praia, e
vovô, dando o primeiro bordo, a cambada primeira, com perfeição, a praia
virou uma grande platéia, aplaudindo, assobiando, ou seja, enaltecendo com
classe, cumprimentando eufóricos a arte e seu artista.
Este fôra o grande presente de Natal
do vovô, o meu também e ficamos satisfeitos com aquela recepção.
Voltamos felizes para casa. E foi
uma maravilha contar na oficina todo o nosso sucesso, que era dos meus
amigos também, inclusive contando a salva de palmas de toda a praia.
Aquilo deixara a todos felizes e
alegres, e as perguntas vinham de todos; o martelo de cabo de carvalho:
─
Você deslizou bem?
O Grande serrote:
─
É fácil navegar com você?
O formão, pincéis, bancada:
─
Foi lindo mesmo?
Enfim todos queriam saber tudo, nos
mínimos detalhes. Porém, a alegria maior foi ver o sorriso do vovô, quando
disse a todos na oficina:
─
Meus queridos amigos, este foi o melhor trabalho que fizemos juntos!
─
Hurra! Hurra! Hurra ao vovô e ao pequeno Guardian!
Alegria geral! O vovô sabia dar
valor as suas ferramentas. E saindo rápido chegou a tempo de pegar a dona
lamparina, que de tanto se balançar, ia caindo no chão, e vovô, já
conhecia o detalhe e ria, dizendo:
─
Outra vez hein, bela amiga, te peguei a tempo!
─
É vovô, senão quebrava meu vidro, e ainda bem que é de dia, e não estou
quente, senão podia pegar fogo!
─
Vira esta boca prá lá, dona lamparina, diziam todos, esta palavra não pode
ser pronunciada aqui! diziam todos sérios.
─
Desculpem amigos, me desculpem, me esqueci!
─
Tudo bem dona lamparina, eles entenderam, mas quando a senhora estiver
acesa, nada de balanços, porque além de queimar minhas mãos ainda fará o
impronunciável! dizia simpaticamente o vovô.
─
Pode deixar vovô, que não darei nenhum problema quando acesa!
Todo orgulhoso, eu não cabia em mim
de satisfação, sendo o melhor barco construído pelo vovô, até aplaudido.
Quem diria, de grande mogno, a um lindo barquinho, jamais poderia ter
nisto pensado.
Margarida, aos domingos, aparecia
para visitar o vovô, sozinha; o “Tostão” e o “Mudo” não apareceram nunca
mais, e o vovô não se incomodava com isto e não tocava no assunto.
Minha vida não poderia ser melhor.
Todos os sábados, passeava com vovô, e sempre éramos aplaudidos.
E o tempo foi passando, passando,
passando... até que o vovô começou a se sentir muito cansado em ter que me
carregar sozinho, lavar, me desarmar e guardar. E teve uma conversa comigo
que me deixou assustado, numa tremenda confusão.
─
Meu “Pequeno Guardian”, já estou mais velho
do que pensava para nossas velejadas, vou ser obrigado a vendê-lo, para
que não fique aqui todo empoeirado.
─
Não faz mal vovô, fico empoeirado, mas não saio daqui!
─
Não, meu amigo, vou colocá-lo a venda por um preço muito alto, de forma
que quem o comprar tratará você com muito mais carinho e cuidado do que
eu, como se fosse uma jóia rara!
Aquilo não entrava no meu
entendimento. Mas os amigos da oficina que já haviam construído grandes
veleiros com o vovô, me diziam:
─
“Pequeno Guardian”, o vovô está certo; nós já
vimos diversos barcos e famosos que fizemos com vovô, e seus donos o
tratavam com muito mais cuidado e carinho que ele, logo irá aparecer
alguém que será seu maior amigo, não tenha dúvida.
─
Gostar, não gostei! Mas, me reconfortou um pouco! O que queria mesmo é
ficar com o vovô e meus amigos da oficina.
E lá fui eu ser anunciado.
Plaquinhas em mim, etc... E tão logo, pela manhã saía para o portão da
casa do vovô, que dava para a rua, começaram a aparecer compradores.
─
O barco é uma beleza, Mestre Estêvão, uma jóia, mas o preço é muito alto!
E a resposta do vovô era sempre a
mesma:
─
Este foi o último barco que construí, e por tal, tem este privilégio!
Charretes luxuosas, pessoas ricas,
sempre paravam para me conhecer, com seus cachorrinhos mal educados, que
adoravam fazer pipi nas rodas da minha carreta, me deixando um cheiro
horrível, o que levou ao vovô a pedir que os cachorrinhos não entrassem.
E o tempo foi passando, passando,
passando...
Havia no mercado do outro lado da
rua, em frente à casa do vovô, um rapazinho que levava lá em casa, as
mercadorias que vovô encomendava, e que sempre me alisava, e no fim do
trabalho, ia sempre ficar me olhando durante muito tempo. Ele sempre
esperava, todo o dia, a hora do vovô me levar para a oficina para ajudá-lo
a empurrar minha carreta. Na saída me dava acanhado uma alisada muito leve
no meu verniz. Eu comecei a gostar dele, simpático, me tratava bem.
Quando chovia ele vinha correndo
para me cobrir, com minha lona, pois sabia que água da chuva era veneno
para minha madeira.
Phill, era seu nome, lourinho, com
os cabelos quase brancos, tinhas uns quatorze anos, fala mansa, educado,
estudava pela manhã e a tarde trabalhava na entrega do mercado. Seu pai e
sua mãe tinham vindo da Suécia, um país ao norte da Europa, que diziam ser
muito frio. O pai dele ao chegar na ilha tinha ficado muito doente e como
a vovó, que também não conheci tinha ido pró céu. Ele morava com sua
mamãe, que fazia uns pães e doces que todos na ilha gostavam muito. Na
oficina todos nós começamos a simpatizar com ele, que ao levar minha
carreta para dentro ficava perdido olhando todas as ferramentas e seus
olhos piscavam como jóias à luz das lamparinas.
Vovô começou, como todos, a gostar
muito do Phill, e começou a convidá-lo para velejar conosco aos sábados
pela manhã, porque à tarde ele tinha trabalho no mercado, e aquela hora
para ele era sagrada, e aos domingos ninguém mexia uma palha na ilha, era
coisa de religião.
Vovô adorava a companhia de Phill,
porque não fazia força e não se cansava, ao tempo em que ensinava tudo e
ele aprendia muito bem.
─
Seu Estêvão, temos que voltar agora, está chegando a hora de pegar no
serviço! Vovô distraído, velejando com Phill se esquecia do horário do
mercado.
─
É mesmo, Phill! E de imediato dava o bordo, e voltávamos a tempo de Phill
me lavar, enxugar, desmontar e me guardar. Tudo fazia sozinho, vovô já
estava muito cansado.
E Phill que não conhecia nada sobre
vela, barcos, mar, se tornara um velejador de primeira, conhecia os
ventos, os nós, me manobrava igual ao vovô, e com tal professor, e o bom
aluno que era, melhor não poderia ser.
─
Seu Estêvão, posso polir os metais do “Pequeno Guardian” e lubrificar seu
montões?
─
Mas e seu horário Phill?
─
Quando sair do trabalho passo na oficina e faço isto! Vovô gostava daquela
resposta. Eu, então, adorava. Mas o Phill queria mesmo é admirar as
ferramentas, enquanto me polia os metais ficava perdido, olhando a
oficina.
Um dia depois do serviço, e de ter
me lubrificado e polido até demais os meus metais, Phill ficou apaixonado
pelo martelo com cabo de carvalho. Vovô fôra até a casa e ele não
resistindo começou a alisar o cabo trabalhado do martelo.
─
O trabalho era perfeito, dizia Phill baixinho!
Alisava os baixos e altos relevos e
o martelo ficara todo feliz.
Nisso vovô voltara e ficara
assistindo escondido a atenção e o carinho de Phill com sua ferramenta,
até que Phill viu o vovô e ficou desconcertado, muito encabulado disse
engasgando ao vovô:
─
Se, se, seu Estêvão, me me desculpe, pe, ter pepego na sua feferramenta,
isto não não vai ma mais acontecer!
Vovô ria-se. Eu não entendia porque
Phill ficara tão nervoso e vermelho, será que o Phill ficou doente de
repente, pensava com meus parafusos.
─
Não tem nenhum problema Phill! Respondeu vovô.
─
Você é dos poucos, muitos poucos mesmo, que tenho certeza, segura meus
amigos com carinho!
─
Mas seu Estêvão são sua ferramentas! Me desculpe, não farei mais isto!
─
Calma Phill, não precisa se encabular, você pode pegar em qualquer
ferramenta da minha oficina. E quer saber do que mais, vou ensinar a você
a trabalhar com elas como fiz, ensinando a velejar, e tudo mais com o
“Pequeno Guardian”, tudo que sei ensinarei a você!
─
Mas seu Estêvão, largo do mercado às 5 horas da tarde, já está começando a
escurecer, isto irá tomar muito tempo do senhor!
─
Meu caro Phill, meu tempo já está chegando ao fim, e irei utilizá-lo da
melhor maneira possível, gastando-o com você!
Foi alegria geral na oficina, pois
desde há muito tempo, todos gostavam muito do Phill, o garoto lourinho
simpático. Festa pura, nada poderia ser melhor para meus amigos, que
ficaram felizes da vida, pois não ficariam mais parados, já que
empoeirados jamais ficaram pois vovô sempre com muito carinho limpava e
sempre fazia manutenção nas suas ferramentas.
E lá começaram as aulas de
marcenaria do Phill, dadas pelo mestre que era vovô. Como escolher a
madeira, ver suas fibras, o sentido, seus nós, como utilizar as
ferramentas, nem com força, nem solta, pegar suave, saber usá-las, seus
diversos tipos, e para cada serviço. E Phill era [ótimo aluno, aprendia
muito bem e rápido, e as ferramentas sempre colaborando, ajudando a ele
aprender bem tudo e rápido.
Até que um dia ele desenhou e
entalhou sua primeira peça, tudo sozinho, um “marreco” chinês, um mandarim
como se dizia. Um patinho lindo, com todos os detalhes das penas, bico,
etc... Pintou-o, se transformando numa belíssima peça. Phill se
transformara num artesão, e com todo o conhecimento que vovô havia
transmitido e mais sua rara sensibilidade.
Vovô ficara todo orgulhoso e a
oficina inteira também. Phill havia passado, sem o saber, no seu exame
final, e muito bem, com nota máxima. O “marreco” ficara perfeito, aos
mesmos conhecedores de madeira, diriam ser de porcelana.
Mais ainda orgulhoso ficou o vovô,
quando Phill, humilde e na presença de todos nós, virou-se para o vovô e
disse:
─
Seu Estêvão, este “Marreco” é do senhor, meu primeiro trabalho em madeira,
fruto de todos seus ensinamentos. O senhor é que merece, e o ofereço com
muita gratidão e satisfação!
Vovô ficou desconcertado, como todos
nós, e agradecendo a Phill pegou o “marreco”, com muito carinho,
colocando-o entre seus melhores trabalhos, na sala de visitas da casa.
Naquela noite, ao colocar seus
óculos no bolso da velha camisa de artesão, todos notamos aquelas mesmas
gotas no canto dos olhos do vovô, desta vez com um leve sorriso nos
lábios. Ele apagou a lamparina e deu um boa noite diferente a todos nós.
─
Boa noite, meus bons amigos. Hoje encontrei as mãos que trabalharão vocês
no futuro!
O recado fôra dado: Phill seria o
substituto do vovô.
Na manhã do dia seguinte, após sua
escola, Phill, como sempre fazia chegava cedo no mercado e qual sua
surpresa quando o dono o chamou e logo foi dizendo:
-
Phill, gostamos muito do seu serviço no mercado, e quando quiser poderá
aparecer por aqui. Ontem foi seu último dia de serviço conosco, aqui está
o seu pagamento, seja muito feliz!
Phill ficara paralisado, não
entendia nada, porque fora mandado embora. O mercado vendia bem, não
entendia nada. Ele sempre procurara trabalhar com muito cuidado e atenção,
para agradar aos fregueses.
Balbuciando, branco, pergunta ao
patrão, porque aquilo, agora.
-
Oh! Phill, você agora não precisa mais carregar embrulhos, seu Estevão nos
mostrou seu belíssimo trabalho em madeira. Um profissional, um mestre, e
não nos disse nada, hein? E continuou: - Seu Estevão veio hoje nos avisar,
que de hoje em diante, você será o mestre da oficina dele, que já tem até
encomendas para começar bem sua carreira!
O chão sumira. Phill ficou tonto.
Todos o abraçando, e na porta do mercado a figura do vovô o esperava com
seu vasto sorriso.
-
Olá Phill! Meu mestre. Vamos para oficina que temos muito serviço!
Um forte abraço trocado com Phill,
que mal tinha palavras para agradecer a seu Estevão.
E atravessando a rua, o novo mestre
entrava pela vez primeira na sua oficina e todos nós, felizes e
satisfeitos, cumprimentávamos nosso bom amigo:
-
Como vai mestre Phill? Boa tarde!
-
Obrigado, meus amigos. Boa tarde também, vamos fazer muitas coisas juntos!
-
Hurra! Hurra! Hurra ao nosso Phill!
Vovô estava feliz e se colocando
entre mim e Phill, suave como era do seu jeito disse:
-
Mestre Phill, este é meu presente de seu início de carreira, de hoje em
diante o “Pequeno Guardian” é seu. Mais do
que ninguém você o conhece e admira e tenho a certeza que ele será seu
melhor amigo durante toda sua vida!
Não acreditei no que ouvia, o Phill
meu, eu do Phill!
Toda a oficina gritava:
-
Hurra! Hurra! Hurra ao vovô, ao Phill, ao “Pequeno
Guardian”!
E Phill, suave como aprendera, vendo
vovô falar, disse a ele:
-
Mestre Estevão, como vou poder lhe agradecer tudo que o senhor fez por
mim?
-
Só tem um jeito, Phill, só tem um jeito! Me chame de vovô também!
Phill era o neto que vovô tanto
sonhara e queria. E Phill tinha ganho um bom amigo e um grande vovô.
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